quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Juventude

Vinha descabelada, sisuda, vencida, caminhando de volta do trabalho pra casa. O descabelo e o vencimento porque jamais consegui perdurar a arrumação por todo o horário comercial. Meio dia tudo já começa a desgringolar. Seis da tarde, vixi maria! O siso, porque uso da técnica mesmo pra andar na rua quando só, apressada, ou quando ermo, ou quando sem óculos, enfim. Evita algumas interpelações pessoais.
Pois andava desse jeito aí, quando um moço de bicicleta diminui a velocidade, tira o fone dos ouvidos e acha por bem se comunicar. Pela pose e pelo sorriso enlarguecido, se vê que se acha bem bonito o moço:
- Oi, tudo bem?
(escolho a cara mais franzida, o bico mais montado, a voz mais grave, o tom mais seco e...)
- Tudo bem sim, por quê?
- Não, por nada! É que queria te conhecer, posso?
- Olha...Não. Não pode.
- Mas porque? Tu és comprometida?
- Sou comprometida com meu bom senso. Mas já que a gente tá conversando, me conta. Tu já conseguiste alguma coisa abordando alguém assim?
(insira aqui um peito tufado, uma cara de orgulho e um sorriso pra rasgar de enlarguecido)
O moço e a sua bicicleta atravessaram a rua. Pude ver quando ele abordou umas garotas do outro lado que se derreteram em risadinhas. Eu, do lado daqui, ri. Ele me olhou e enviou uma piscadela. Eu retribuí com um joinha incentivador.
Ah, a juventude...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Torcidas

Quero falar sobre torcida. Mas não daquela torcida das multidões, das camisas, dos gritos de guerra, das paixões. Quero falar de outra torcida. De outro tipo.
Olha, tem pouca coisa que seja mais verdadeira nesse mundo que torcer pelo outro. E aí tava aqui pensando no tanto que é bonito isso de dispor energia, de intencionar os melhores pensamentos, de ter "frio na barriga alheio", de compartilhar aflições, tudo pela vitória do outro.
Esse torcedor, ele se doa - e aí são muitas as maneiras de se doar - e não quer nada pra si. Tipo mãe na beira do campo de futebol vendo o filho disputar campeonato do colégio, sabe? Mas mais especial ainda por não ser mãe. Já que mãe e torcedor são, na verdade, uma grande redundância.
Verdade que é o outro quem saboreia a vitória, recebe a medalha no peito, leva o troféu pra casa. O que o torcedor ganha é a alegria irradiada. Não tem olho que não brilhe. Porque alegria compartihada e comemorada reverbera. E acredito mesmo(!) que isso seja recompensador sempre!
Dia desses, em meio a uma multidão descontextualizada, recebi um abraço amigo acompanhado de um "boa sorte" tão de verdade que continha naquele único abraço os braços de toda uma romaria e umas 300 palavras prensadas naquelas duas. Era disso que eu tava falando. E que na hora não pude falar pelo nó na garganta causado pelo recado entendido.
Coisa boa é torcer. Coisa boa é ter torcida. Eu reconheço a minha no olhar. Ela não é pequena e eu falo isso sem nenhuma modéstia. Torcida dessas se conquista é com amor recíproco. E por eles eu torço, mentalizo, peço, me esfolo, visto camisa, brado, tomo partido...fica até meio parecido com aquela outra torcida lá. Quero que vençam, quero que sejam felizes, que os olhos brilhem, que os sorrisos explodam, e depois quero ficar ali por perto, esparramada na alegria irradiada.
Essa torcida aí, desse jeitinho aí, ela é tão genuína, mas tão genuína, que aquele personagem que sempre haverá, o que torce contra, o secador, pfff, ele fica tão pequenino e inexpressivo que imagino que nem tenha mais caracteres pra que se possa terminar de falar dele nesse text

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Customizando mandinga pelo mundo

Já ouviu falar em customização de mandinga? Pois é. Inaugurou-se a prática no Reveillon deste ano e, desde então, a arrumação não parou mais. Exemplo: uma amiga, cuja identidade preservarei, pegou o seu vidrinho de perfume "chora-aos-meus-pés" e tascou-lhe dentro o nome completo - sem abreviações - de um dito cujo. Porque? Ora, como é que o perfume ia descobrir sozinho quem ela queria que chorasse aos seus pés, não é mesmo? Achei justo. Tasquei logo no meu vidrinho de perfume "chama-dinheiro" um papel dobrado com um valor de salário que me apetecesse - com cifrão, vírgula e deixando bem claro que era valor mensal, nada de parcela única.

Tá. Aí, caminhando pela 18 de julio, em Montevideo, me deparo com a Fuente de los Candados, uma fontezinha muy hermosa, lotada de cadeados presos nela e uns nos outros, e uma plaquinha que assim dizia: "La leyenda de esta joven fuente dice que si se lo coloca un candado com las iniciales de dos personas que se aman, volveran juntas a visitarla y su amor vivira por siempre...".

Éramos três as brasileñas abobalhadas diante de tanta fofura. Todas com o coração ou vazio ou preenchido inadequadamente. É! Mas todas morrendo de vontade de prender um cadeadinho ali, sabe?
Primeiro seguimos, como quem nem se importa, mas foi pôr o olho num kiosko que vendia cadeados por ali que...aaah, vamo customizar, né?

Houve uma que achou melhor não arriscar. Não comprou cadeado nenhum e ficou por ali a admirar o amor dos outros e registrar a presepada das demais.
Houve uma que achou por bem escrever as suas iniciais e desenhar ao lado uns três corações e atribuiu à Fuente a responsabilidade de escolher uns donos bem bacanas para voltar com ela à Montevideo.
Houve uma que, na maior cara de pau, inventou para si mesma e para as demais, que ia desafiar a Fuente. (Ah, tá!). Tascou as iniciais do inadequado ao lado das suas, prendeu e nem olhou pra trás. Quer só ver se é verdade mesmo a tal lenda. An-han.

E que conste nesta história: que tudo foi escrito com lápis de olho; que estava chovendo; que, caso os corações vazios ou as iniciais do inadequado forem trazer algum mau agouro, autoriza-se desde já a customização automática da mandinga para que a chuva borre o lápis de olho no cadeado e a Fuente não consiga ler coisa alguma do que las chicas brasileñas escreveram.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Que chova rã enquanto toca o baião!

 
 Martina: preciso te contar um episódio rapidola. cabe?  Eu: cabe. cabe uma penteadeira. Martina: sábado ganhei de aniversário o disco novo do Chico. ouvi domingo enquanto fazia um escondidinho de macaxeira com carne seca DOS DEUSES lá em casa  daí enquanto rolava uma faixa que é um baião eu soltei "ai, gente, tão Yara* isso..."aí a Luana: "cara, pois eu quero te dizer q é a música favorita dela"
 Eu: ééééééé. é mesmo! poutaqueôpariu, vou chorar.
 
 Martina: eu te juro pela saúde do Matheus*
 Eu: martina, onde tá a menina escrota que eu tinha dentro de mim? ai, agora é tudo um marejamento só, credo.
Martina: não é da minha época. desculpa te dizer isso assim.  Eu: mas, me diz, SÓ ME DIZ, o que é aquilo do coração que o indivíduo ora enche ora esmaga que nem fole de acordeão? EGUA! olha, eu dei um grito mesmo quando ouvi essa música a primeira vez porque juro pra ti que ja tinha pensado nisso, mas nem sou o Chico pra conseguir fazer sair do pensamento assim pronto pra consumo, saca? Martina: saaaaco
 Eu: "Meu coração / Que você sem pensar / Ora brinca de inflar / Ora esmaga. / Igual que nem / Fole de acordeão / Tipo assim num baião / Do Gonzaga"*
 Martina: hahahahahahahha. cara, o que todo mundo quer é um amor, olha. QUE CHOVA RÃ SE EU TIVER FALANDO MENTIRA!
 Eu: ééééééé. é isso!
  Martina: daí a gente tem, né. aí a gente reclama ama ama ama
 Eu: éééééé. é uma maluquice esse negócio de amor, bicho. uma maluquice!
   __________________________________________________*Yara, por um acaso, sou Eu. Ou é como a Martina me chama, entre outras variações.*Matheus é o sobrinho lindo cor de caramelo da Martina que ela ama muito e que só jurou por ele porque é a mais pura verdade. *E aqui está a riqueza de música do Chico que contem a "metáfora mais bonita da cidade": [Tipo um baião - Chico Buarque]

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O moço que canta

Na frente da minha casa mora um moço que canta.
Canta pra rua, quero dizer. Como se não morássemos no centro de Belém. Como se não houvesse um barulhento ponto de ônibus entre a minha janela e o portão da casa dele. Como se a cidade não fosse um caos.
Ele lá, cantando pra rua. Um vozerão tão "ão" que inunda o quarteirão inteiro.
Há alguns anos, ainda nem havia pêlos brancos na barba do moço, ele andava de patins enquanto cantava. Eu achava o máximo! Geralmente à noite, ele ia até a esquina e voltava. Da janela, ficava acompanhando o volume da voz aumentar e diminuir enquanto ele ia e vinha, da Avenida Braz de Aguiar à Avenida Nazaré, cantando sobre os patins.
Agora não tem mais patins. A mocidade do moço já não é mais tão moça assim. Mas cantar, ele ainda canta.
Canta e varre a calçada. Canta e dá bom dia, e dá boa tarde e dá boa noite. Canta escorado no portão, voz impostada, braços ritmados, presenteando quem passa...sorte de quem é pedestre, porque esses vão ter um pouquinho mais de tempo pra aproveitar o show.
Digo show porque o moço que canta, canta muito bem. Não tenho muito conhecimento a respeito da classificação dos timbres e coisa e tal, mas imagino que ele seja um barítono. E um barítono com gosto musical irretocável.
Pois na frente da minha casa mora esse moço. Que andava de patins à noite. Que canta lindamente pra quem passa. Que é barítono por classificação abusada minha. E que em tudo se afina com as minhas preferências musicais.
Não sei como ele se chama. Não sei quase nada sobre a história dele. Já ouvi dizer que é um moço muito inteligente. Sei que muito se interessa por política, pois em épocas eleitorais, entre uma música e outra, há apaixonados brados ativistas. E sei que ele é muito querido, pois no dia do seu aniversário havia uma faixa enorme pendurada na sacada da casa, em nome da família, lhe dando parabéns e lhe declarando amor.
Uma vez por ano encontro o moço em outro endereço. O reconheço (reconheço a voz e de imediato encontro ele na multidão), todo bonito e vestido de branco, cantando no coral do Círio na arquibancada da Avenida Presidente Vargas, um pouco mais pra frente do Teatro da Paz. Ele é sempre um dos mais alegres e é das vozes mais bonitas ali emprestada para homenagear a Virgem e enfeitar a procissão.
Eu sempre o aponto, como vizinha orgulhosa, pra quem está ao meu lado: tá vendo aquele moço ali, ele mora na frente da minha casa e canta desse jeito aí, bonito bonito, quase toda noite.
Já tive vontade, inúmeras vezes, de fazer pedidos ou de parar um poquinho e aplaudir. Nunca tive coragem. Mas sempre passo sorrindo e faço um esforço enorme pra ele perceber que eu não só passei.
Queria que o moço que canta soubesse que, por ele, eu diminuo o passo, cantarolo baixinho e sorrio mesmo como se aplaudisse.
Um dia ainda faço um pedido. Tenho uma lista. Um dia ainda paro e aplaudo.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Diga-me o que cantas e te direi os males que espantas

Não sei o tipo de curto circuito que deu na minha cabeça enquanto dormia, mas o fato é que acordei e passei o dia IN-TEI-RO com uma música do Raça Negra a tocar no pensamento.
 “Então vem (então vem) / maltrata de vez (maltrata de vez) / 
estou com saudade e a tua maldade me faaaaz deliraaaaar / 
Te perder (te perder) / Eu não vou resistir (eu não vou resistir) / 
Eu vivo sofrendo, estou te querendo nasciii pra vocêêê...”

Acho engraçada essa dorzinha de cotovelo dos pagodes românticos. Ninguém se esgoela, sabe? Ninguém grita, ninguém puxa cabelo. Está lá a dor, a perda, a saudade, a traição, mas tudo se canta dançandinho em passos iguais, para um lado e para o outro, e com cara boa. É engraçado o sofrer do pagode.

Totalmente diferente, por exemplo, do sofrimento do samba. O sofrimento do samba é classudo, é d´outro nível! Por mais sofrível que seja, o sofrer do samba é um sofrer digno. Acho lindo o sofrer do samba. Acho mesmo.

Zi, amiga minha, ficou, então, achando que poderíamos fazer uma escala do sofrimento. Uma linha. Do sofrimento light ao completo descabelamento.

Adverti, logo. Descabelamento é com Bethânia!
 "Vou te envolver nos cabelos / Vem perde-te em meus braços / 
PELO AMOOOR DE DEEEUSS / 
Vem que eu te quero fraco / Vem que eu te quero tolo / 
Vem que eu te quero todo meu"

Ninguém que já tenha ouvido esse “PELO AMOOOOR DE DEEEUS” gritado por Bethânia pode passar incólume a essa vontade de puxar os cabelos. E se saiu ileso disso, olha, não veio mesmo ao mundo para se descabelar!

Pra não ser injusta, colocaria no mesmo patamar deste “peloamordedeus”, Elis Regina cantando “Atrás da Porta”, naquela parte em que o grito vai crescendo e depois vai decrescendo até virar um murmuro:
 “E me arrastei / e te arranhei / e me agarrei nos teus cabeeeeeelos / 
no teu peeeeito / teu pijaaaaama / nos teus pés / ao pé da cama...".

Ê, laiá.

No extremo oposto do descabelamento, Zi sugeriu Jorge Aragão. Fazendo jus àquele primeiro raciocínio de que o sofrimento do pagode é light. O sofrer do Jorge Aragão é do tipo que já passou. O cara tá ali contando pros amigos como foi, mas já tá meio superado, com a cara boa, sorrisão, dançandinho e coisa e tal.
 “Logo, logo, assim que puder vou telefonar. / Por enquanto tá doendo. / 
E quando a saudade puder me deixar cantar/ vou dizer que andei sofrendo..”

Enquanto eu cantava, Ziralda lá, fazendo reguinha e pondo fotos dos ícones com o trecho da música ao lado, e nos lembramos, quase que ao mesmo tempo, do nosso querido Fagner. Como deixar de fora?

O sofrer do Fagner é um sofrimento rasgado. Com vogais abertas. Com sotaque. Com olho fechado. “Deslizes” é o cúmulo!
 "Não sei porque insisto tanto em te querer. / Se você sempre faz de mim o que bem quer / (...) / 
E é assim que eu perdôo teus deslizes / e é assim o nosso jeito de viver / 
Em outros braços tu resolves tuas crises / Em outras bocas na consigo te esquecer"

Sofrer de Fagner tá no mesmo patamar do sofrer de Fafá de Belém. Tudo com sotaque e vogal aberta e olho fechado. Classificaríamos (será?) como um sofrer regional? Não sei. Há que se pesquisar.

Daí, passei à minha teoria do sofrer classudo. O sofrer do samba. Ih, o que não falta é exemplo. Espia a classe do Cartola:
 "Chora, disfarça e chora / aproveita a voz do lamento que já vem a aurora. / 
A pessoa que tanto queria, antes mesmo de raiar o dia / deixou o ensaio por outra / 
Oh! triste senhora / Disfarça e chora"

Pura classe! E a lindeza da Dona Ivone Lara cantando “Mas quem disse que eu te esqueço?”:
 “Tristeza rolou nos meus olhos do jeito que eu não queria / E manchou meu coração, que tamanha covardia / Afivelaram meu peito pra eu deixar de te amar / Acinzentaram minh'alma, mas não cegaram o olhar /  Saudade amor, que saudade / Que me vira pelo avesso, e revira meu avesso / Puseram uma faca no meu peito / Mas quem disse que eu te esqueço / Mas quem disse que eu mereço”

Ficou decidido, então, que em estima à beleza e à elegância do sofrer do samba ele não entraria na nossa escala.

Apartado o samba, encaixamos na escala o sofrer da Katya Cega. Não só em nome do politicamente correto preenchimento da cota dos PNEs, mas por cantar a verdade-verdadeiríssima de que não está sendo fácil mesmo pra ninguém:
 “Não está sendo fácil / Não está sendo fáááciiil / 
Não está sendo fácil viver assim, você está grudado em mim...”

E aí, foi mais ou menos assim, nesse caminho e nesse gracejo, que Zi compôs a escala-da-fossa mais incrível do mundo inteiro. Sério! Ainda colocou um bônus lá que... só vendo, só vendo.

Eu juro que queria distribuir pra ajudar os aflitos. Tipo aqueles santinhos de Santo Expedito que dão por aí com a poderosa oração no verso. Um empreendimento totalmente altruísta. Mandar fazer milheiro e tudo, sabe? Porque não deixa de ser uma causa justa e urgente, não é? Mas no lugar do “Devolva-me a paz e a tranqüilidade, Meu Santo Expedito”, bastaria dar play na faixa bônus escalada por Zi. Diz se não tenho razão:

 (arte da maior qualidade da minha querida Zi, a quem conhecem por Luena Chaves)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sobre pêlos, peito e cotovelo

Encravou-lhe um pêlo no peito.
Pêlo, assim, com acento circunflexo mesmo. A reforma ortográfica que vá às favas, porque é o seu próprio pêlo, encravado no seu próprio peito, e o mínimo que lhe cabe é dar-lhes a grafia que quiser.
Lembrou da história que Helena contou sobre o livro do Haroldo Maranhão. Um que narra as aventuras de Filipe Patroni. Tá, não era bem sobre pêlo encravado no peito o que Helena contou. O livro era o "Cabelos no Coração", e a ideia da expressão, salvo engano de interpretação, é a de que a pessoa é tão dura/cruel/sem compaixão que nascem-lhe cabelos no coração.
Lembrou disso porque o livro muito lhe interessou e ficou de procurar nas estantes virtuais da vida. Só por isso. Porque insensibilidade não era o caso da personagem do pêlo encravado. Vixe! Longe de ser!
E como se não bastasse todo esse abuso de licença poética, encravou-lhe um pêlo no cotovelo.
Desse jeito mesmo, tipo piada pronta, se de verdade não fosse.
Tinha um pêlo encravado no peito e outro encravado no cotovelo.
O do peito estava lá, feio e tudo mais, mas indolor. O do cotovelo, argh, inflamado, dolorido...Encostar os braços na mesa pra pensar, nem pensar! Pensar dói uma dor aguda quando se tem um pêlo encravado no cotovelo.
E como tudo isso começou a parecer muito uma metáfora de outra coisa, adentrou-se de uma vez no sentido figurado da questão. Por que não? Foi quando recomendaram-lhe: "Espreme eles! Espreme, mas não esquece de ler o que tem dentro". No que respondeu: "Mas e se peito e cotovelo não falarem a mesma língua?".
E não falam.
Moral da história: o cotovelo não age conforme o peito; e, menos ainda, peito nenhum age conforme o cotovelo.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Sempre Fagner

- Perdi o celular.
- Como assim? Deixaste em algum lugar? Será que caiu da tua bolsa?
- Não sei, não tá em lugar nenhum, chama e ninguém atende...perdi.
- Tenta lembrar a última vez que viste...
- HAHAHAHAHAHAHA
- Que foi?
- Minha última lembrança é que tava usando o celular de microfone enquanto cantava Fagner.
- Ai, sempre o Fagner...

[perdi o celular mas achei esse vídeo incrível com Espumas ao Vento, Elza Soares e dança moderna]

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Troço genial

Música é um troço genial. E eu nem me atreverei a desenvolver essa frase porque é só isso e ponto.
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No documentário "Rio Sonata", que homenageia Nana Caymmi, alguém disse por lá uma coisa que eu bem já havia dito por aí. Não dá pra ouvir Nana como música de fundo, música ambiente, música de elevador, sabe? É preciso não estar fazendo mais nada. Porque é preciso se concentrar pra ouvir Nana, prestar atenção mesmo, se entregar. Porque é intenso. Dá até pra se perder por aí (aqui) no "em si" da gente. E se perder com Nana, experimenta, é bom! Nem acho triste, nem sofrido ou sinônimos. Acho é verdadeiro pra caramba. Nana canta com uma verdade cruel - essa foi outra coisa que disseram no documentário e que eu também concordo.
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Eu me emociono com música de um jeito específico. Tá lá na pastinha "emoção musical". É diferente das outras emoções. Me emociono com a música, me emociono com quem se emociona com a música que me emociona e me emociono com quem faz a música que me emociona. Tudo isso tá lá nas sub-pastinhas dentro da pastinha "emoção musical".
E aí por isso acho o maior barato esses documentários todos. "Uma noite em 67". "Música é Perfume". "Coração Vagabundo". E acho outro barato os livros. Fui muito feliz a cada página lida do "Os sonhos não envelhecem". E tenho uma penca de amigas apaixonadas pelo Lobão de um jeito diferente pós-livro "50 anos a mil".
Não foi por outro motivo que presenteei, cheia dos interesses egoístas, o meu pai com o "Gonzaguinha e Gonzagão, uma história brasileira", e a senhôura minha mãe com a biografia do "tremendão" que já está ali na minha cabeceira aguardando a sua vez.
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Eu, que já gostava um tanto assim de Nana Caymmi (e como é que não se gosta de um Caymmi vindo todos daquela árvore linda chamada Dorival?) saí da sala de cinema na maior vontade de jogar uma partidinha de canastra com ela. Deixava até ela bater! Só porque ficou muito claro que quando ela faz uma canastra-real enche o pulmão e solta um palavrão terrível entoado assim numa nota bem grave.
É, porque agora eu sei que ela joga canastra, fala palavrão, tem um senso de humor ótimo, nunca cantou baixinho nenhuma bossa nova e nem viu graça nenhuma na Tropicália, mesmo tendo sido casada com Gilberto Gil.
Mas se teve uma coisa que me fez gostar mais ainda da Nana, foi ver que quando ela ouve uma gravação daquelas que mexe com os brios, não conta conversa: puxa os cabelos pra cima, bagunça tudo, embaraça, se descabela, sabe do que eu tô falando?
Olha, eu respeito muito quem se descabela assim instintivamente, como uma consequencia natural de uma emoção. Como quem diz "Gente, que coisa mais linda, pra quê penteado diante disso?".
Aí, ficou tocando na minha cachola à dentro, a noite toda, "Caju em Flor", do João Donato. Com a voz da Nana. E eu me descabelando. Daquele jeito. Tão lindo, né, gente, pra quê cabelo desembaraçado diante disso?
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CAJU EM FLOR: Nem você sabe a sorte que me dá / A você, de amor, eu lhe chamar / Ser seu bem sob o céu de Oxalá / Meu anjo bom, meu manacá / Em Belém, onde tudo aconteceu / Eu senti no momento em que bateu / Encontrei esse amor que vem de lá / Caju em flor / Meu bem vem cá / Nem parei pra pensar se dava pé / Me deixei arrastar pela maré / Naveguei ao sabor do Rio-Mar / Esse amor que eu guardei / Foi presente de Yemanjá.
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Música é um troço genial. Não é?

quinta-feira, 9 de junho de 2011

São João, olhai por nós!

Gosto de São João de um jeito assim que às vezes empata com o Carnaval.
Aí, propus aos amigos vatapá, mingau de milho, fogueira, sanfona e banho de cheiro.
A chamada: QUEM TOPAR LEVANTA O DEDO, PINTA O DENTE DE PRETO, VESTE XADREZ E FAZ UM BALANCÊ!

Aí, vieram os MELHORES comentários do mundo: 
D: Pintar o dente? Essa festa vai ser tão foda que eu vou é TIRAR um dente da frente! 
W: E aí, que eu já comecei a estocar leite para deixar para a nenen. Não sei quando meu organismo estará limpo novamente para amamentar! hehehehehe. Isso é sério!
H:  Cuidado pra nao confundir o leite da canjica pelo amor de Deus!

Aí, veio a amiga produtora toda tabalhada na megalomania: 
R: Minha sugestão é contratar a Dona Rosana da Tapiocaria Paraense.Vê quantas pessoas confirmam presença e quanto ela cobraria por cabeça. Define menu: tapiocas, vatapá, canjica...
Da última vez cobramos X por pessoa com direito a tudo: bebida, comida e pagamos a estrutura de som.Compra umas bandeirolas para enfeitar o sítio,  foguetes, estalinhos, etc. Contratamos uma estrutura básica de som e luz. Chama os Djs Se Rasgum (rsrsr) e os amigos e tá feita a festa! : )Ha, tem que rolar o casamento na roça! Definir o Padre e o casal!! Quem é que vai casar em breve?! rsrsrs
M: Amiga, pinta o dente e vem! É o que importa.  

Aí, vieram os casamentos: 
N: Ahhhh!! Eu queria aproveitar pra casar "de verdade" com meu marido. Posso ser a noiva?!
M: Eu, por mim, todo mundo se casa diante dessa fogueira! Tô casamenteira que é uma coisa! Na falta de casal, sobra padrinho e fica tudo certo. =)
J: Vou levar uma batina porque serei eu o padre e como padre moderno que sou, celebrarei um casamento coletivo e liberal, casarei todo mundo que tiver a fim: casarei homem com mulher, mulher com mulher, homem com homem com homem, casarei mulher grávida de grinalda, casal separados...só não casarei menor de idade porque o Supremo ainda não permitiu e porque também não iria casar mesmo.

E as caipiras assanhadas: 
B: Casamento (até na roça)? Tô fora! Mas proponho uma barraca do beijo...hehehehehe
R: Pra beijar não precisa de barraca, tá liberado, não tá, produção?

E uma ótima conclusão:
R: A qualidade da festa se mede pelos preparativos.Uma vai estocar leite, um vai virar padre, o outro vai arrancar um dente.Vamos observar.

 BALANCÊÊÊ!!!
 

segunda-feira, 6 de junho de 2011

"Entrar y salir de fase"

Deram um sossega-leão na minha constante vontade de viajar.
Sei lá como diabos se deu isso. Mas se deu. Sossega-leão! Mortinha da Silva a vontade.
Nem show de beatle, nem semana santa e nem uns papinhos sobre N.Y. e Dubai me animaram. Coisa séria.
Aí surgiu uma historinha aqui outra ali sobre ir a Caracas. Festival de música. Companhias boas. ~Praia~. Pareceu haver um batimento cardíaco na vontade, mas nem...devia ser aqueles reflexos automáticos do organismo aos estímulos. 
Depois, e eu não sei bem como foi, o site da FLIP abriu sozinho (juro!) bem no meio da minha vista. Ouvi um suspiro da vontade vindo d´algum lugar. Ouvi mesmo. Mas foi só um suspiro. Muito perto, mal daria pra planejar, e o trabalho novo, e ir parar no RJ outra vez...passou.
Pisca janelinha no GTalk convidando pra uma escapadinha para Machu Pichu. Fez-se um trocadilho sensacional infame em 5 segundos e o que era um suspiro transformou-se numa puxada de ar daquelas de encher o diafragma e fazer a respiração completa da yoga, sabe como é?
Eita que desembestou-se a vontade e os dedos dela feito loucos danaram-se a passear pelo mochileiros.com e por albergues e por voegol e por essas coisas todas que ajudam a levar a gente pra longe, lá de longe, onde toda a beleza do mundo se esconde...
E ao final do dia, já estava decidido o destino (que nem é Caracas, nem Paraty, nem Machu Pichu DaMinhaPicha), a data, a formidável companhia e já tínhamos um bando de dedos cruzados para aumentar a caravana.
Quanto ao sossega-leão, canto pra ele: 

"Ir y venir, seguir y guiar, dar y tener,
Entrar y salir de fase.
Amar la trama más que al desenlace,
Amar la trama más que al desenlace..."
(Jorge Drexler)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

~PRAIA~

Para ficar em paz:

1-Dirigir por três horas ouvindo música boa; 2-Levar na garupa um neném que acorda sorrindo, se alonga e estala os dedinhos com os braços pra cima pra dançar; 3-Esfoliação com hidratante e açúcar, depois óleo de pitanga e depois banho de mar; 4-Dançar Moraes Moreira na praia como se deserta ela fosse - porque dentro da menina ainda dança; 5-Ouvir a história do grande amor da vida de uma amiga de 86 anos de idade - houve um baile de carnê, um Grande Hotel, uma canção composta e mais de 50 anos de desencontro; 6-Fazer uma amiga de 86 anos de idade; 7-Pôr do sol; 8-Descobrir o achocolatado mais gostoso do mundo - e não lembrar o nome dele; 9-Chorar pelo que normalmente se ri - a história de uma  sandália Havaiana do Batman; 10-Rir do que normalmente faz chorar - os desamores; 11-Tentar responder os porquês de um menino perguntador de 03 aninhos de idade; 12-Fotografar digital, analógico, manual, automático, com foco, desfocado etc; 13-Tirar proveito de um belo contra-luz; 14-Batida de côco, Licor 43 e um Cabernet Sauvignon - e não haver ressaca; 15-Ficar tão íntima de Baco, deus do vinho, que ele virou Deco, parceiro nosso; 16-Céu estrelado; 17-Dormir sem esforço (e sem pensar); 18-Acordar sem ter hora (e sem pensar); 19-Almoçar com barulhinho de maré ao fundo; 20-Voltar.

 Deixa eu me deitar na tua ~praia~

segunda-feira, 30 de maio de 2011

AVISO

"Imagina, você, que eu estava sem meus óculos! Sabe que quando eu estou sem óculos já não escuto muito bem... E aí, eu estava tão rouca, mas tão rouca, que até a voz da minha consciência tava saindo assim muito baixiiiiinha. Quase afônica a consciência minha. Não ouvi, né. Tsc, tsc..."

Ou seja.

Existe esse talento horroroso incrível para nunca faltar à ponta da língua uma explicação daquelas que desarma qualquer ser humano do outro lado do diálogo que teria todos os motivos do mundo para dar uma senhora bronca.

Portanto, VOCÊ AÍ que está prestes a cometer um desatino, um aviso: não venha me pedir conselhos, não!

Porque eu tenho uma caixinha cínica mágica cheia de desculpas ótimas para todos os meus próprios e posso acabar emprestando alguma.

P.S. Se for um desatino dos bons, tenho uma seção especial só com as melhores. Não se aproxime! (Se não quiser MESMO cometê-lo).

terça-feira, 24 de maio de 2011

E se...?

- O que eu faço com a minha saudade? Dobro e guardo no bolso?
- Teu pijama tem bolso? Porque tenho um pijama que tem bolso e nunca entendi pra que servia. Acho que descobriste.
- Não vejo utilidade melhor.
- E se ao dobrar a saudade, a saudade dobrar?

Talvez nós tenhamos descoberto a serventia de um bolso no pijama.
Será pra dobrar a saudade e guardar ali antes de dormir?

Tem saudade dobradinha que nem Origami. Colorida e com cheirinho nostálgico.
Tem mesmo! Mas também tem saudade bolinha de papel com chiclete grudado dentro.
Saudade grudenta, preguenta, que vai e volta, mancha, faz sujeira...argh!

E se esquecer a saudade no bolso e pôr o pijama pra lavar?
Será que saudade desmancha na água?
Se bem que a saudade já é mesmo meio molhada...

E se a saudade dobrada, redobrada e molhada, criar vida própria e se desdobrar por aí?
Levemos a saudade para passear!



*Este post foi escrito a muitas mãos, via facebook, com a colabaração de Luana Oliveira, de Gilda Ribeiro e de Rafael Guedes que teve um ataque de fofura e disse que leva a saudade que sente da gente no bolso d´uma bermuda de usar no sítio. =)

domingo, 22 de maio de 2011

Para guardar rancor/Para guardar amor

O tema debatido noite a dentro foi rancor. Pesado, né? E se pesa só de falar ou escrever, imagina o peso do acúmulo de um monte desses no decorrer da vida.
Eram duas as protagonistas do debate. Uma lembrava de já ter sido muito rancorosa e de hoje, simplesmente, não ser mais. Ou quase não ser. E a outra, dona de um dos melhores corações já vistos, se intitulava rancorosa com orgulho.
Claro que todos os demais debatedores envolvidos, todos muito queridos, sabiam que nem aquela havia garantido seu lugarzinho no céu por estar no time dos sem-rancor e muito menos a outra deixava de ser a dona de um dos melhores corações que conheciam por carregar nele esse desagradável peso. Mas a história rendeu.
A primeira contava que se alguém aprontava com ela na quinta-feira, no sábado já havia esquecido totalmente as razões da mágoa. Que mágoa?. A duração do seu rancor era de mais ou menos 48hs. Ia ficando pequeno até sumir. A outra falava com as mais vívidas lembranças de coisas que aconteceram há anos. E tudo seguia do mesmo tamanho.
E com toda a leveza que se era possível, graças ao amor que os debatedores tinham entre si, construiu-se e destruiu-se argumentos, fez-se piadas, detectou-se confusões. Porque a gente confunde mesmo as coisas. Será que não guardar rancor é sinônimo de se deixar fazer de bobo? E será que para fazer valer o amor-próprio é preciso guardar rancor? Então é assim: os bobos, deixam pra lá, e os cheios de personalidade, levam a ferro e fogo. Que nada! Ali a prova, eram duas bobas e cheias de personalidade, mas com níveis de rancores absolutamente diferentes, e tudo bem.
De qualquer forma, é certo que voltaram pra casa, as duas, ponderando seus rancores (e não-rancores). Soube que a primeira decidiu fazer um caderninho, escrever na capa "Para Guardar Rancores" e anotar ali as 'malvadezas' que lhe fizessem para o caso de precisar lembrá-las. É que ficou dito no debate que é bom, às vezes, lembrar desses desagrados. Não entendeu muito quando nem porquê, mas vai que de fato seja... E ela ficou de recomendar à outra que fizesse um caderninho e escrevesse na capa "Para Guardar Amores", e para cada anotação de amor ela podia riscar um rancor até, quem sabe, zerar a balança.
O dos rancores já foi feito. Por enquanto segue com as páginas todas em branco e bem guardado numa gaveta. Imagina-se que o que for, porventura, escrito, acabará virando anedota. Ou então ele pode ficar ali, na gaveta, em branco e esquecido. É também um destino provável.

...Ah, essas coisas que se guardam em gavetas nunca visitadas. Pra quê? Guardar rancor acumula mofo, dá ácaro. E como já é de conhecimento geral, eu sou alérgica. Não posso. Recomendações médicas.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Chororô

Aquele dia em que a gente chega em casa dando um reino por um banho, cama e pés pra cima e...cadê as chaves? Minha expectativa era de passar pelo menos duas horas pro lado de fora esperando alguém chegar. Juro que deu vontade de chorar.
Mas aí descobri que no hall do prédio tem um banco de balanço. Não é um banco que balança, nem é bem um banco, é tipo uma namoradeira, assim, acolchoadinha, gostosa, e que balança.
Me estiquei ali, peguei um livro na bolsa pra ler e pronto. Estava apta a sobreviver às próximas duas horas. Queria escrever um bilhetinho e colocar por baixo da porta da síndica pra agradecer. Tava tudo bem ali, sério. Deu até vontade de chorar de novo.
Opa, péra lá, chorar de novo? Como assim? Pois é. Foi quando me dei conta - pra fora de casa, suja, cansada, pernas esticadas no banco que balança do hall do prédio - que eu ando muito chorona, muito!
Guardei o livro, a síndica apareceu, eu ofereci o maior sorriso que eu tinha, ela riu sem jeito e apressou o passo, o que acho compreensível.
E aí decidi passar a próxima hora fazendo um pequeno dossiê dessa minha fase “faca de cebola”. Comecei a listar as coisas que ultimamente muito emocionaram esta banana que vos fala. Acontece que a lista ficou meio compriiiiiida, e achei melhor me ater a falar só de 05 chororôs. Deixo os demais anotados no caderninho mesmo.  

Dureza. No filme "Como esquecer?", a personagem Julia (Ana Paula Arósio) pede ao amigo que a amarre numa cadeira. E passa o dia inteiro ali. Amarrada. Sozinha. Em silêncio. Não consigo falar muito sobre a cena. Imagino que ela cause as mais diversas impressões. Eu vi ali tanta coisa. Uma dureza enorme consigo mesma. Uma covardia corajosa (ou uma coragem covarde?) para lidar com a dor da perda. E, por outro viés, uma lealdade e confiança tão bonita de ver entre amigos. Dessas que torna possível entregar na mão do outro e sem questionamentos o seu próprio absurdo e, tudo bem. Eu chorei pelos dois. Por quem é duro consigo mesmo e por quem está ao seu lado e não pode fazer outra coisa a não ser estar ao lado.



Ternura. Exposição "Mínimo, Múltiplo e Incomum", da Keyla Sobral. Já faz meses que vi, mas basta apertar o botão da lembrança e tudo me vem. Não consegui chegar ao final da primeira parede de desenhos sem chorar. Cada um tocava num pedaço de memória e explodia um mundo feito campo minado. Mas em silêncio. Tudo é afeto. Tanta ternura. Daquelas que conversa com o pequenino dentro da gente, sabe. Dava até vergonha de estar assim tão tocada no meio das outras gentes. Mas estou certa que levantasse a vista, constataria que  as gentes todas  estariam tocadas também. Não olhei. Não quis mesmo importunar o  diálogo silencioso que podia estar se travando com o terno de cada um.

Inocência. A Culpa é do Fidel. Aluguei o filme pela capa e pelo título. Acertei. Bom de ver. Fotografia bonita, drama e humor sutis. Aí tem essa garotinha que se chama Anna e fica muito confusa com a mudança repentina dos seus abastados pais que se transformam em "barbudos, vermelhos, comunistas", tudo culpa do Fidel! Mesmo que o filme se passe na França e que o comunismo do pai da menina tenha origens chilenas. La faute à Fidel! E a menina é de uma rabugice encantadora. Tem uma cena na escola de Anna em que ela confunde ser solidária com seguir a maioria. E fica muito aborrecida porque seus pais ensinaram errado. Como saber quando é um e quando é outro? Eu chorei quando ela entendeu. E é muito bonito ver o caminho que Anna percorre até passar a pensar por ela mesma. Porque solidariedade não se aprende assim mesmo, se forma.

Sermão. Não sou dada a padres. Não é nada pessoal, mas não sou. Acontece que ouvi um sermão iluminado no casamento de uma amiga amada que, sério, chorei a celebração inteira. Falei pra ela. Aquele padre foi um divisor de águas. Sou uma antes e outra depois daquele sermão. Ele falava sobre o fato de todos nós sermos luz e sombra. E que quando a gente casa, casa com a luz e com a sombra do outro. Vai no pacote. Não leva um se o outro não for. E eu, maquiagem borrada, já incrementava em pensamento o sermão do padre. Claro que há dias em que acordamos sombra e o outro acorda luz. E o contrário também - como não havia de ser? E é claro que isso tudo deve ser mesmo muito difícil. Mas imagina quanta coisa boa a gente pode viver nessa penumbra!


Lariri. Chorei no primeiro "Lariri..." da música nova do Chico cantada pelo próprio e pela Thais Gulin. E não é porque é do Chico. Se bem que temos todos que convir o qüão difícil deve ser conseguir continuar sendo "o" Chico Buarque depois de ser "o" Chico Buarque há tanto tempo! Ele é incrível. O Chico Namorando Buarque. Acontece que ele letrou com maestria aquela nossa burrice/cegueira/autoenganação de quando estamos abestalhadamente apaixonados. "Ah se eu soubesse..."? Que nada! Ainda que soubéssemos faríamos tudo igualzinho! O Chico canta cinicamente a nossa mentirinha de amor. "Casava com outro se fosse capaz...". Mentira! "Ah, se eu pudesse não caía na tua conversa mole outra vez...". Mentira! "Fugia nos braços de um outro rapaz....". Mentira deslavada! "Mas acontece que eu sorri para ti...e aí...larari, larara, lariri, lariri..." E toda a verdade mora nesse lariri. O Chico Sabido Buarque.

terça-feira, 10 de maio de 2011

"Amor, sonhe com os anjos. Não se paga pra sonhar."

Tenho uma relação super estranha/especial com meus sonhos. Sonho pra caramba, lembro de tudo com detalhes - cheiro, gosto, diálogos - e isso seria ótimo e muito divertido se eu não confundisse tudo com a realidade. Misturo vida sonhada com vida vivida e até entender que alhos não são bugalhos faço a maior confusão!
Certa vez sonhei que terminava com um namorado. Não teve o que me fizesse atender os telefonemas dele durante um dia inteiro. Ora, o que ainda tínhamos pra falar? Acabou, tá acabado! Até que, já à noite, eu tentava me lembrar do porquê do fim do namoro e... Ih, era sonho.
Outra vez, sonhei que estava grávida. Acordei, mãos nas cadeiras, analisando minha barriga no espelho e me achando a pior mãe do mundo porque eu tinha bebido umas cervejinhas na noite anterior. "COMO é que eu pude ser tão irresponsável e estar com toda essa ressaca estando grávida?" Me penintenciava enquanto a ficha não caía.
Aí, num outro dia, sonhei que eu namorava dois amigos ao mesmo tempo. Mas não foi assim um sonhinhozinho qualquer. Sonhei a relação inteeeeeira - início, meio e fim! Meses e meses! E mor-ro-de-ver-go-nha até hoje quando encontro um deles, aquele que descobriu tudo (no sonho!). Qualquer dia desses acaba escapolindo um pedido de desculpas.
Teve outro sonho muito legal, eu estava indo de barco (ora era à remo, ora o barco tinha motor) pra África. Nesse dia dormi quase 12 horas seguidas - um recorde inacreditável pra uma pessoa que sofre de insônia - o que faz muito sentido já que a África é mesmo muito longe pra se chegar de barco e eu não podia acordar de jeito nenhum enquanto não lá chegasse. Acordei super cansada, até um pouco bronzeada, e sem entender patavinas o que eu fazia na minha cama, em Belém do Pará, no Brasil, depois de tanto mar.
E poderia seguir aqui com uma lista enorme dos queridos, reais e inusitados sonhos meus. Acho que dava um blog só pra eles. Sim, eu os anoto!
Mas agora vou dizer porque andei pensando nisso tudo, afinal. É que tenho escutado numa estranha frequência meus amigos me contarem que sonharam comigo. Só na última semana, invadi o sonho de uma amiga lá na Itália, dias depois lá estava eu a sassaricar num sonho de um amigo no Rio de Janeiro e, de ontem pra hoje, apareci sem nenhum convite num sonho de outro amigo que dormia muito-bem/muito-obrigado lá em Brasília. Achei, aliás, um roteiro muito racional esse, pois pra vir da Itália pra cá dei uma paradinha no Rio - ou então não seria eu - e nada mais lógico do que fazer uma conexão em Brasília antes de aportar por aqui, não é verdade?
Daí que eu fiz essa piadinha besta porque tomei minha pílula do Bozo diária, mas a verdade é que fiquei meio encafifada com esse sonharéu todo. Será que vai me acontecer alguma coisa muito ruim? Será que vai me acontecer uma coisa muito boa? Será? O que me fez entrar na cabeça dormente de toda essa gente? Onde é que eu estava nos meus sonhos enquanto estava também nos sonhos deles?
Crenças, metafísica e visões Junguianas à parte, acho isso tudo muito engraçado mas de uma forma perturbadora. Engraçado porque eu me divirto um tanto nos meus sonhos e vivo mesmo todos eles. A parte de mim que sonha vive tão intensamente quanto a parte de mim que vive. Engraçado também por conta da confusão que faço que, quando desfeita, me rende boas gargalhadas e histórias pra contar. E no fundo quero continuar assim, sem saber administrar isso direito. Mas é perturbador pelos exatos mesmos motivos que faz ser engraçado. Ainda mais agora que dei pra me divertir (é o que eu suponho, pois nem todos os amigos disseram o que eu fazia na cabeça deles) nos sonhos alheios, mundo à fora!
Como não tenho opinião formada em relação ao tal "fenômeno onírico" (o que não diminui nenhum pouco meu prazer de sonhar), construí uma explicação pragmática para a minha visita insistente às cabeças dos amigos. É que acordada, ando sossegada, gostando de ficar por aqui, meio com preguiça de planejar viagens, curtindo um cafuné nas raízes. Mas essa é a parte de mim acordada. Quem disse que a parte de mim que sonha sossega? Sossega nada! Não foi parar na Itália, essa danada?

A foto é de um tumblr que eu adoro e que
super se encaixa nesse contexto: http://portasonhos.tumblr.com/


sábado, 7 de maio de 2011

Das coisas que não cabem

Sobre ser mãe: Tem Maria, tem Maíra e tem Marina. O ano é 1985. E o amor não cabe. Sobra, sobra, sobra.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Dia da sogra

Procura-se uma sogra.
Que não tenha assim MUITOS dotes culinários. Ou, se tiver, que tenha assim MUITA paciência pra ensinar.
Que, além do filho que me caberá, tenha ela outros. Aliás, quanto mais melhor.
Que goste de jogar canastra, mau-mau, buraco. Dominó, não. Ou, ao menos, que jogue uma boa conversa fora.
Que ela tenha uma risada pra fora, sonora, não muito curta, pra acompanhar a minha. É, era bom que a sogra fosse dada ao riso.
Que goste de contar histórias. Pode contar a mesma várias vezes que eu ainda ajudo a incrementar. Sou craque!
Que ela tenha as mãos macias (e há mãos macias nas mais ásperas palmas de mão) para fins dos netos que ela terá. Mas também pra segurar na minha porque quero uma sogra que segure na minha mão.
Que, se tiver um sogro pra mim ao seu lado, eles sejam um casal muito fofo. E se não tiver, que ela tenha vivido uma boa história de amor. Sogra sem amor é complicado de administrar.
Não é uma exigência imprescindível, mas ia ser muito legal se o sobrenome que ela me emprestasse (eu sei que é o do sogro, mas enfim, estou com o foco na sogra) fosse no plural ou no diminutivo. Minha fixação por plural relaxou um pouco e tenho criado afeição pelos inhos (moutinho, coutinho, passarinho etc.).
E que ela ache muito legal essa minha ideia de fazer o caminho inverso, de procurar primeiro por ela, e se sentindo toda especial (sendo!) queira ser minha sogra. Porque sogra que não me queira como nora...essa não quero, não!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Continuar e começar

Não lembro bem quem foi que disse e nem em qual rede social eu li, mas era algo mais ou menos assim: "Hoje eu não quero nada que comece, quero alguma coisa que continue". Pode ter sido a Tati Bernardi que diz umas coisas dessas bem bacanas e que a gente tem a impressão de já ter pensado mas não conseguiu organizar em frase pronta pra ser verbalizada.
Continuar é bom, verdade. Continuar é manso e começar é meio revolto. E se for pra classificar assim num contexto revolucionário (salve as pequenas revoluções!), continuar seria a direita e começar seria a esquerda - isso se direita e esquerda ainda conseguissem significar aquelas coisas que costumaram significar um dia. Se bem que direita e esquerda talvez não sirvam pra classificar continuar e começar. Ou servem? O que sei é que tem a hora do continuar e tem a hora do começar. E é preciso olhar pra dentro e ao redor ao mesmo tempo para saber qual dos dois verbos empregar.
Há mais de um ano eu continuava. Era pra ser assim, me diziam o olhar pra dentro e o olhar ao redor. Acontece que a zona de conforto (porque continuar é confortável pra caramba) começava a apresentar um desconforto escondido lááá no canto, e de repente ficou tão desconfortável que eu me expulsei de dentro dela a chutes e ponta-pés. Me puxei mesmo pelos cabelos, porque se expulsar da zona de conforto não é coisa simples de fazer não.
E aí comecei. E que grata surpresa com o emprego acertado do verbo. E que boa primeira impressão desse começar!

terça-feira, 5 de abril de 2011

Levantou poeira

Não é que eu ande varrendo as coisas pra baixo do tapete. Ou é? Vai ver que até varro, mas como não sou dada às prendas domésticas, acabo deixando espalhadas pela casa aquelas poeirinhas que não consigo juntar num montinho suficiente volumoso para que pudessem ser alcançadas pelas cerdas da vassoura. A vassoura é das boas, não é essa a questão. O problema é ela ser manipulada por um ser humano desses com pouquíssima coordenação motora para as atividades do lar feito eu. E aí essas poeirinhas ficam por lá, vários motins de poeirinhas, à espera da destreza que não tenho. E acho justo que elas, as poerinhas, me olhem feio e fofoquem entre si num tom cheio de cobrança porque falta de destreza não é desculpa pra largá-las ali. Muito menos pra sufocá-las embaixo do tapete. Dizer que elas sequer se avistam é d´uma tremenda cara de pau. Basta passar o dedo no chão e atestar, ali elas permanecem empoeirando a casa toda. Ignorá-las, seja por preguiça, por cara de pau, ou por dor nas costas, carrega mesmo um quê de masoquismo porque é bem isso que vai acontecer: os motins de poeirinhas logo se chamarão ácaros, me entupirão as vias aéreas, me empolarão a pele e eu vou ter que pegar a vassoura - porque dar fim às próprias poeirinhas não é função delegável - e tossindo, espirrando e me coçando, varrerei tudo como se deve. Pra fora da casa.

terça-feira, 29 de março de 2011

Dia do sorriso bonito e do abraço apertado

Ano passado ficou definido, entre uns amados queridos, que hoje, dia 29 de março, seria o "DIA UNIVERSAL DO SORRISO BONITO E DO ABRAÇO APERTADO". Porque nesse dia nasceu uma moleca de sorriso largo, lindo e arrebatador, e de abraços daqueles que amassam a roupa, a cara, o cabelo... sabe, abraço de verdade? Pois é. E aí, hoje é dia de comemorar ter sido arrebatada por aquele sorriso e ter sido amassada naquele abraço. E de lembrar de sorrir e de abraçar sempre. E de agradecer por essa lição. Eu rio, eu abraço e eu agradeço.
Na verdade, na verdade, hoje é um dia de saudade.
Uma saudade que, se irremediável não fosse, melhor remédio não haveria: sorriso bonito e abraço apertado.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Recadinhos de concurso

Alô você que chega antes dos portões abrirem e fica sentado na rua com cara de coitado lendo apostilas do tamanho da Bíblia. Sério. Não dá mais tempo.

Gurias dos cabelos longos, por favor, etiqueta de concurso: coque ou rabo de cavalo. As cadeiras são super coladas umas nas costas das outras e já tenho muitas coisas com quê me preocupar. Não mereço o passeio do cabelo de vocês pelo meu caderno de prova enquanto me concentro na leitura das benditas questões.

Instituições, entendam. É fisicamente impossível caber a bolsa de uma mulher nos sacos plásticos fornecidos. Cabe celular, cabe chave de carro, cabe relógio digital. Ok. Mas a bolsa inteira não, né? E também não cabem, as bolsas, em baixo das carteiras, naquele parco diâmetro de espaço. Acompanhem a moda, as bolsas estão cada vez maiores. Gigantes. Arrumem aqueles sacos de lixo, sei lá. Ou proíbam que se levem bolsas. O que não dá é pra ficar discutindo com as Maricotas esse tipo de fricote enquanto estou com os nervos a flor da pele.

Fiscais, pasmem, nós sabemos ler. Ler as instruções da prova (que podíamos ler sozinhos e em silêncio) duas vezes em voz alta não faz nenhum sentido. É como se vocês fossem aeromoças fazendo aquelas coreografias de saída de emergência e "máscaras cairão sobre as suas cabeças". Nós não estamos prestando atenção e estamos muito mais interessados em decolar e chegar. E quem não ler ou passar batido alguma informação... problema. Não é uma questão do avião cair e o ser humano morrer. Vai ser só mais um concurso em que não passou e pronto. Próximo.

Quem acorda e sai de casa pra fazer uma prova e não tem UMA caneta esferográfica preta de "corpo" transparente não vai passar no concurso. Simples assim. Ninguém deveria nem se dar ao trabalho de emprestar.

Concorrentes, queridos, me expliquem, por favor porque eu não consigo entender de jeito nenhum. Como é que se faz pra responder 100 questões objetivas, escrever uma redação, ir no banheiro duas vezes e fazer piquenique, tudo isso em 4 horas? Eu mal consigo levantar o pescoço e o povo lá, entrando e saindo, comendo barrinha de cereal, chocolate, club social, tomando refrigerante, suco, água. Qualquer dia desses vão levar pipoca, pedir pizza. E eu lá, sem nem levantar o pescoço.

Por ora, é isso.

terça-feira, 22 de março de 2011

Passatempo (ou lição sobre primeiras impressões no Bukowski):

Faça a relação entre as colunas:

(1) Cara bonito que cantarola Chico Buarque
(2) Cara que pega a sua capa de chuva emprestada na fila da balada
(3) Cara que se finge de gringo num inglês xexelento para se aproximar
(4) Cara com 18 anos de idade em balada de adulto

(a) Papo super interessante
(b) Grande babaca
(c) O mais legal da festa inteira
(d) Ganhou atenção de todas as meninas

Gabarito: 1-b; 2-c; 3-d; 4-a.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Para não esquecer do Carnaval

Versinho da Ida

Fosse eu duas, pulava era os dois carnavais
Mas como umazinha que sou e na falta de muitos reai$
Recife e Olinda ficaram para a próxima
Me encontrem em Ipanema, na Vinícius de Moraes.

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Versinho de Circo

A razão para a existência da Orquestra Imperial
É mesmo o Circo Voador e o seu Baile de Carnaval.
Sem Amarante, Max Sette e Moreno Veloso
Tapavam buracos: marido de Regina Casé e um crooner misterioso.
Thalma, Jacobina, Domênico e Kassim são mais que suficientes.
Sinceramente, nem percebi que a Nina não estava presente.
Lembro que Fernanda Torres pulava freneticamente fantasiada de Vani
E por alguma razão queríamos porque queríamos que a Thalma cantasse Gaby.

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Rapidinhas:

Matemática: 02 garrafas de vodka divididas por 04 mocinhas é uma conta que não deve mais se repetir para a felicidade geral da nação das moças de boa família.

Ideia fixa de se fantasiar de noiva no Carnaval não costuma terminar bem e ainda é provável que camufle algum daqueles desejos contidos que usualmente levam as moças à terapia.

Aquela máxima de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço: arquibancada popular da Sapucaí está aí pra relativizar a Física.

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Novo dito popular:
"Faca de cozinha não serve nem para rasgar suspensório de palhaço"

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Palavra do Carnaval = Piúba

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Dança do Carnaval = Magaly

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Lugar do Carnaval = Praça São Salvador

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Cena do Carnaval = Volta da Sapucaí, pós desfile da Beija-Flor. Metrô lotado. Muito. Abarrotado. Gente cansada, fantasiada, bêbada, dormindo, de tudo um pouco. 8hs da manhã. Porrada entre duas mulheres. Puxão de cabelo. Arranhão. Uma carioca x Uma turista. E um ser humano vestido de KIKO (aquele, amigo do Chaves) tentando apartar.

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Diálogos:

No bar (todas de head-band):
- Moço cadê minha vodka? Eu já te entreguei o ticket.
- Não entregou, não. Quem entregou foi ela.
- Ela TAMBÉM. Mas eu já entreguei meu ticket e quero a minha vodka.
- Desculpa é que eu fico confuso com tanta menina com esse troço na testa.
- Ah, e por causa disso tu ficas goiaba?

No taxi:
- Ih, fiz uma corrida com esse taxista ontem, ele é um estúpido.
- Blá, blá, blá, blá, blá (gritinhos, risadas etc).
- Fica quieto que esse taxista é nazista.
- Quê? Passista?
- Fala baixo, pô. Na-zis-ta.
- Anh? Passiva?
- Ai meodeus, NAZISTA!

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Lista das coisas mais bacanas que aconteceram no "Me Beija Que Eu Sou Cineasta":

1º- Encontrar Marcelo Rubens Paiva bebum, descamisado e com uma cara muito sapeca no meio do bloquinho;
1º- Tomar banho de purpurina azul que na verdade era pó de pirilim-pim-pim pois me devolveu toda a energia para o Carnaval já perdida há dias;
1º- Dançar diminutivos muito queridos: Dominguinhos e Gonzaguinha;
1º- Ser mais uma vez personagem de uma sincronicidade absurda que ainda precisa de mais uns 10 Carnavais para ser compreendida;
1º- Chamarem Otto pra subir no Trio e ele nunca mais descer;
1º- Cantar "Ereção" para o Rubinho Jacobina;
(tem mais...)
E não consigo enumerar por ordem de preferência, então os acontecimentos ficam assim, todos em primeiro lugar.

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Versinho da Volta

E a viagem feita com o coração apertado,
O dinheiro contado e o humor alterado,
Acabou tendo seu fim por cinco dias adiado.
(tudo culpa do localizador - VGFJ6E - decorado)
E desse tempo esticado ficaram:
Um encontro marcado, um reencontro frustrado,
Um Jeneci(CD) autografado, um Cartola(LP) comprado,
Um banho de cachoeira tomado, um amigo consolidado,
Enfim, um Carnaval, modéstia à parte, muito bem aproveitado.
=)

sábado, 19 de março de 2011

O Dramin, o Rio e o Ondjaki

Talvez eu já tenha perdido o "timing" de contar do Carnaval. Mas é que rendeu assunto/risada/lição pra mais de dez feriados. Acho que vale a pena guardar na memória (aqui denominada blog) em forma das Tirinhas Carnavalescas, tal qual o ano passado (ê saudade do Récife!). Vou fazer. Num próximo post. Porque esse, de tirinha, nada tem.

É que tava aqui lembrando do quanto me faltava espírito carnavalesco enquanto rumava ao RJ. E aí tomei um dramin para apagar e acordar lá no Galeão pronta para ser contaminada pelos fanfarrões ao redor.
Acontece que no meio do caminho havia Fortaleza. Havia duas horas no aeroporto de Fortaleza no meio do caminho. Dopada, não conseguia manter a cabeça ereta. Muito menos os olhos abertos. E me apavorava com a ideia de perder o voo e passar o carnaval no Beach Park. Pensei em escrever num papel o numero do voo, horário e destino para que algum bom samaritano me acordasse para o embarque. Não tinha forças pra escrever. E decidi que era exagero. Não era: num acordar sobressaltado entrei na fila do embarque de um voo para Campinas. Fui barrada, ufa! Ainda preferiria o Beach Park.
Alcançado o destino correto, um pouco grogue mas já bem dona de mim, uma fatia de escola de samba me recebe no desembarque. Putz, não fui contaminada. Achei a mulata feia, as roupas de mau-gosto, a bateria descompassada. Problemão!
Mas o Rio, sábio, macaco-velho, cheio de manha, tascou na minha frente um dos meus escritores "nova-safra" favoritos: Ondjaki, fofo, angolano, por quem tenho enorme carinho e de quem levava um livro na bolsa que pretendia ler na viagem, pretensão frustrada pelo dramin. Sentei ao lado dele pra esperar o ônibus e enquanto ele fumava um cigarro que não me incomodou, eu ri de canto de boca já contaminada pela receptividade personalizada do Rio de Janeiro.
No ônibus, fui lendo Ondjaki atééééé Copacabana, e ele me disse assim ó:

"Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração, tud' uma batida só, sangue leve no peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem? Se é impossível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá... Desde candengue que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem as nuvens dele também? De onde eu venho é muito longe, por isso, juro mesmo, nasci de novo. Vou te confessar: espanto é só aquilo que ainda nunca tínhamos vivido com a nossa pele!
Avilo, desculpa tanta filosofia, o que tenho é sede mesmo.
Num tenho dinheiro, num vale a pena te baldar. Mas, epá, vamos só desequilibrar umas birras (cervejas); sentas aí, nas calmas, eu te pago em estória, isso mesmo, pura estória daquelas com peso de antigamente, nada de invencionices de baixa categoria, estorietas, coisas dos artistas: pura verdade, só acontecimentos factuais mesmo. A vida não é um carnaval? Vou te mostrar alguns dançarinos, damos e damas, diabo e Deus, a maka da existência."

Duas primeiras lições do Carnaval:
1 - Dramin, nunca mais;
2 - O Rio tem todas as manhas pra me conquistar, até quando eu ACHO que estou difícil!