quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Um e Outro

Não é conversar. É conviver.
Não há o que conversar porque não há o que resolver.
Se o que Um quer é ficar com o Outro e o que o Outro quer é correr do Um, nem a mais longa das conversas do mundo convergiria esses quereres.
A não ser que aquele Outro passasse a querer o Um... Coisa que nem Um nem Outro vislumbram no momento.
A não ser que aquele Um passasse a correr atrás do Outro... O que o Um não faria agora por ser uma grande d´uma deslealdade consigo.
É por isso que não é conversar. É conviver.
Conviver. Porque se chegar o dia em que o Outro pare de correr do Um...
Conviver. Porque se chegar o dia em que o Um possa se concentrar no Outro sem que a si se comprometa tanto...
Conviver. Porque se algum dia um desses dias chegar, e ainda houver toda essa benquerência que hoje há, que ambos ainda estejam ao alcance Um do Outro.

Conviver. Converter. Convergir. Esses verbos todos aí.
"Perderam-se" não é uma boa conjugação.
Para qualquer dos finais em que Um e Outro ainda sejam personagens da mesma história.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Viajo porque amo. Volto porque preciso.

"Acordei no meio da noite suando em bicas, tive um sonho que tava numa sala de cirurgia, aí vinha uma mulher vestida de médica e raspava meu cabelo todinho e eu ficava careca, depois vinha outro médico e me perguntava se minhas dores de cabeça eram constantes, eu dizia que sim, ele perguntava em que região da cabeça, e eu apontava com o dedo no lugar. Aí ele abriu minha cabeça com um bisturi, e saia pedacinhos do teu corpo de dentro da minha cabeça. Porra era tudo tão real, que eu acordei em pânico. Tentei deitar novamente mas não consegui. Sinto amores e ódios por você. Sinto amores e ódios repentinos por você" (Do filme, "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te amo")

Quero assistir a esse filme agora, de novo.
Quero ter o texto inteiro dele aqui comigo.
E quero, obviamente, uma vida-lazer!

Mas eu, eu viajo porque amo e só volto mesmo porque é preciso.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Mejillas

A Argentina dá bochechas.
Isso em relação aos visitantes. Sim, porque ao meu redor todos permaneciam esbeltos.
Melhor dizendo: a Argentina ME dá bochechas. Não é um fenômeno geral. É pessoal e instransferível. Como o passaporte que eu não tenho - o que aburriu o moço da imigração para o Uruguay - mas que em breve eu terei para dar boa sorte.
Mas o que eu queria mesmo era falar de bochechas. Das minhas. Rellenas de dulce de leche. Das bochechas que em castellano tem um nomezinho tão simpático que é capaz de eu me acostumar con ellas...
" - Señor, yo me quedo con esas mejillas."

O Inverno e Buenos Aires

Plaza San Martin. Buenos Aires - Argentina

Ah, o Inverno... este senhor charmoso...
Tem cabelos lisos que espanam o rosto e se alvoroçam com o vento.
Os olhos estão sempre semi cerrados (um charme!) pela mesma razão, o vento.
As vestes são gris. O sorriso é pequeno.
E os passos ligeiros. Fugindo do vento.

Buenos Aires, em si, é outra coisa.
Buenos Aires é um sedutor um tanto cafajeste.
Tem cabelos desgrenguenhados e a barba perfeitamente mal feita.
Um moço daquele tipo que rebuliça a vida. Que anula o juízo.
É fuerza bruta. É amores perros.
É baixo. Baixo no sentido de aplicar golpes. De passar notas falsas. De te furtar as roupas.
E apesar de tudo isso, um moço inesquecivelmente apaixonante.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Surya Namaskar

Que o Sol tenha aceitado as nossas boas intenções em saudá-lo.


E que a boa energia ali acumulada perdure, "se expanda e suspenda esse instante..."

sábado, 22 de maio de 2010

Para todas as Marias

Há muitas Marias para cada João.
E até há alguns Joões para algumas Marias.
Digo algumas porque Marias - ainda que à procura de um João para si - sempre sobrarão, por serem tantas.
São muitas as Marias. Ah, são. Ou seria uma impressão?
Mas acontece que entre tantas Marias, e acontece que entre tantos Joões;
haverá aquela Maria e haverá aquele João,
que caminham a um: número ímpar e singular.
Por propósito ou por distração, não estão a se procurar.
Um João e uma Maria que não formam par.

- É claro que não deverão, essa Maria e esse João, ignorar uma trombada que, porventura, possam dar, um no outro, por aí.

A ligação que eu gostaria de fazer hoje

Fosse possível, hoje eu faria um interurbano pra Ana Amélia, contaria uma fofoca ótima e morreria de rir dos comentários dela.

Cara, tu estás assistindo essa nova novela das 8?
Lembra daquela ultima vez que te visitei em São Paulo?
É, em 2007! E aí tu me levaste pro Satyrianas, te embuletaste com aquele espanhol lindo-maravilhoso-olhos-azuis e me abandonaste (muito bem acompanhada) com tuas amigas atrizes e loucas, lembra?
Pois então. Teve aquele carinha que conheci, achei lindo, bati papo horrores, achei que ele era totalmente meu número, cabelos ruivos e sedosos, divertido e coisa e tal.
Esse mesmo!
Lembra que fiquei toda animada, contei piada, discuti o sexo dos anjos, e até encarei uma fila enorme pra assistir uma peça com uma ex-Malhação que faria sexo com o respectivo namorado, só porque eram amigos dele?
Hahahahahaha. Lembra?
E lembra que quando eu já estava super feliz com a ideia de ter filhos ruivos ele vira pra mim num suspiro e diz "Ai, tô morrendo de saudades do meu namorado que está viajando..." e eu esculhambei porque ele deveria ter me avisado que era gay há pelo menos 3 horas?
Pois então.
Ligo na Globo, novela das 8, e lá está o guri.
Acreditas?

E morro de rir só de imaginar os comentários que viriam do outro lado da linha.
Thanks, Ana. Pelas histórias esdruxulas e pelo humor que transcende e me faz gargalhar até com piadas que não tiveram tempo de acontecer.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

TIrinhas Carnavalescas

As TIrinhas devem ser lidas com sotaque. InDIspensável a caixa alta para acentuar todos os "Tês" e "Dês". É como deve ser em bom pérnambuquês!

1 - Alceu Valença, Lenine e DJ Dolores são onipresentes. PraTIcamenTE a SanTÍssima TrindaDE.

2 - Aquele guarda-chuva coloridinho de frevo não é mero adereço carnavalesco. Ele é a única sombra-amiga-companheira possível duranTE várias horas. Bloqueador solar pra acompanhar, não custa.

3 - Quem é que pode dizer que já levou uma bofetada de um Boneco de Olinda? Não, não é pra qualquer um. E DIgo mais: vai ter mão pesada assim lá na Ladeira da MisericórDIa!

4 - Atenção! Ali pelo Largo de São Bento, quarteirão da Prefeitura de Olinda existe um buraco negro, um Triângulo das Bermudas, uma Ilha de Lost, ou qualquer coisa do gênero. Não marque encontros por ali, vai por mim!

5 - ExisTE um botão coleTIvo que é, de alguma forma, acionado todas as vezes que toca a Vassourinha e faz as pessoas pularem. Não importa quantas vezes ao DIa toque, não importa há quantas horas você está em pé. Vassourinha+Botão= Pulos.

6 - Conselhos de pernambucanos devem ser levados a sério: "Moço, como eu chego no supermercado?". Play no sotaque: "Ólhi, minha filha, você tá vendo esse caminho aqui? Pois siga. Pegue seu DÉsTIno e vá. Mar-num-saia-do-seu-DÉsTIno por nada nesse mundo, que você chega lá!". Imagina se ao invés do caminho do supermercado fosse perguntado o caminho a seguir na vida!

7- Ouvir a galera gritar em bom pérnambuquês pela Gabi Amaranto, no Rec Beat, não tem preço. Hahahahah. "DIva, DIva, DIva...". Quem precisa da Beyoncé?

8 - O Galo da Madrugada é uma experiência antropológica. PrincipalmenTE se você está no camarote do PCdoB localizado em um Motel. É!

9 - Paira no ar, o tempo todo, um conviTE irrÉsisTÍvel ao entorPÉcimento. Fato.

10 - Ir a uma balada chamada "Que Putz, Sem Loção" e se deparar com um cartaz na portaria com os DIzeres "Proibida a entrada de Débora Secco" é o tipo de coisa que só o Recife faz por você.

11 - É de uma generosidade sem tamanho dos deuses do Carnaval permitir que uma alérgica à cerveja beba intensamente por 3 dias sem qualquer reação (Skol a R$1,00!!!). Passei ao Ice nos últimos dias sem birra.

12 - Por mais fundo que se cave o prato de macaxeira da Casa de Noca, ela não acaba nunca!

13 - Desfaz-se o mito: é possível dançar frevo! Desde que em slow motion.

Obs: a lista de TIrinhas poderá crescer conforme a memória se restabelecer.

Que se chamava Carnaval, Carnaval, Carnaval...

Hino do Elefante de Olinda*

Ao som dos clarins de momo
O povo aclama com todo andor
O elefante exaltando as suas tradições
E também seu esplendor

Olinda, este meu canto
Foi inspirado em teu louvor
entre confetes, serpentinas, venho te oferecer
Com alegria o meu amor

Olinda, quero cantar
À ti, esta canção
Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar
Faz vibrar meu coração
De amor a sonhar, minha Olinda sem igual

Salve o teu carnaval

*a ideia era substituir a musica por um post digno do Carnaval. Mas a música é hino, e fica. Outro post virá! :-)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Up in the air

Eu poderia escrever zilhões de coisas sobre "Up in the air". Até evitei o bate-papo pós cinema porque acho que só pararia de falar com a chegada da corriqueira rouquidão.

Como adepta e entusiasta da filosofia "viajar é preciso" a identificação com a história é automática e o contexto em que se passa a trama me é muito familiar.

O fato é que há um monte do Ryan (personagem do George Clooney) nessa nossa geração cool de desapegados, descompromissados, sempre "em frente e avante" para abraçar o mundo inteiro sem na verdade abraçar ninguém.

Visto a carapuça e digo, sem pestanejar: aceitaria AGORA uma vida que significasse viajar, viajar e viajar. Conhecer gente, lugares, culturas, sem passagem de volta, sem data de retorno. Tranquilo. Vamo lá. Saudade administra-se.

Mas o quanto há de verdade nesse desapego?

Daí volta-se ao filme. "Up in the air" retrata a solidão do tal homem moderno, para quem a ausência de raízes e ligações pessoais não é um problema, mas uma maneira de viver a vida. O personagem não finca os pés, passa mais tempo em deslocamentos aéreos do que em terra. Tem mais afinidades com aeromoças e comissários de bordo do que com família e amigos. Fica mais à vontade com os procedimentos de embarque e desembarque do que em uma reunião familiar.

Claro que há muita caricatura em tudo isso, mas é possível levar uns bons tapas na cara.

Por que tanto medo de "estacionar"? Viajamos pra ir ao outro lugar ou para fugir de onde estamos? Ou porque não achamos o que procuramos? Ou porque, simplesmente, nem descobrimos o quê procurar?? Daí inventamos uma justificativa qualquer (no filme, a meta do personagem é voar 10 milhões de milhas) para dar algum sentido a essa ansia de não parar.

A cena final é perfeita em retratar essa confusão. Ryan tem, em milhagens, a possibilidade de voar para onde quiser. Poderia dar diversas voltas ao mundo. Mas termina imóvel frente a um enorme painel de embarques com incontáveis destinos a lhe piscar, sem saber pra onde ir. Qual destino, afinal, faz sentido quando não há pelo que ficar ou pelo que voltar?

Não, a vida NÃO cabe em uma mochila. E as relações pessoais são um peso IMPRESCINDÍVEL de se carregar. Necessitamos SIM dos laços para (bem) viver, ainda que estejamos nos moldando às novas formas de atá-los.

BAUMAN que me perdoe, mas, no final das contas, a vida, a modernidade, as relações, não são tão líquidas assim...

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A gente sabe, só não lembra na hora

Aí a gente sai despejando aqueles conselhos que ninguém mais aguenta ouvir, do tipo "ocupe a cabeça", "dê tempo ao tempo", "preencha os espaços com outros conteúdos" e coisa e tal. Logo em seguifa a frase feita: "uma hora passa!"

Mas, sério, é sempre tudo isso mesmo e não outra coisa. É esse o script. Tudo um grande clichê. Somos personagens repetitivos, como nas novelas do Manoel Carlos, sem o Leblon.

A nossa sorte é que, para além das previsíveis cenas dos próximos capítulos, percebemos que, sim (!), somos co-autores dessa bagunça.

E sem ensaio, sem cortes e sem saber como vai ser o final, escolhemos um caminho pra seguir no dia seguinte e em todos os outros também. Escolhemos um caminho pra seguir e outros tantos caminhos para desviar. Porque escolher significa também (des)escolher! E desviar também pode ser um caminho. E no fim das contas nem tem certo e errado. O que tem, é o que tem.

E a gente bem sabe de tudo isso, só não lembra na hora. Acontece que, na hora, sabemos ao mesmo tempo de muitas outras coisas e não dá tempo de organizar todos os saberes. Saber demais e saber de menos, cada qual traz o seu cada qual.

Aí chega o clímax, o tão esperado momento, em slowmotion, em que percebemos que aqueles conselhos de sempre, as frases feitas, as piadas prontas, são das coisas mais bonitas desse mundo, o que no fundo, naquela desorganização de saberes, já sabíamos. Só demoramos a lembrar – o que não importa nenhum pouco, porque demorar já não tem a menor importância quando tudo fica leve.

Aliás, logo percebemos que ser leve também é das coisas mais bonitas desse mundo! Ser leve fala palavrão porque não há palavra ou palavrinha que exprima tão bem.

Ser leve tem braços pra cima, usa vestido. Ser leve tem cabelos soltos e o vestido, aquele que usa, é rodado e colorido.

E começamos a antever que o episódio já se aproxima do fim, e dá medo, dor de barriga, a maior ziquizira – tudo muito normal quando se está liberado para fazer qualquer coisa que quiser.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Pra começo de conversa...


O ano começou assim.
E o Universo está a meu favor.
É isso.

* foto de Luena-Zi

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

domingo, 29 de novembro de 2009

Fora do roteiro.

Foram só 4hs de sono, mas acordo desperta. Desperta apesar da sensação de embrulho no estômago, não de ressaca, mas de que há um dia totalmente inconveniente pela frente. Porque já é o dia seguinte, porque já é hoje quando bem podia ainda ser ontem.
Enfim.
Daí aviso a todo mundo que estou na fossa.
Na fossa, tive uma conversa super bem humorada com a "senhôura" minha mãe sobre amizades coloridas, na medida do possível, é claro.
Na fossa, esperei uma hora, de boa, entre banco e casa de câmbio, resolver-se uma transação financeira internacional para uma amiga.
Na fossa, corri 5km na academia, sem bico e sem tédio.
Na fossa, saí para me distrair (e esquecer da fossa...) e fui a um desfile, emendei pr´uma seresta na praça, segui para um violão cheio de Chico Buarque e ainda sobrou energia para rock, equilibrar latinhas na cabeça, 3 caipirinhas por R$10,00 e um temaki antes de voltar pra casa, às 5h da manhã.
(...)
E aí, nesse horário do dia em que tudo se esclarece - às 5h da manhã! - percebi que não há fossa nenhuma, que eu não vim com esse gene, e que o final deste episódio fugiu completamente do roteiro.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Pedidos vermelhos

Árvore dos pedidos. Círio 2009. Praça da Sé.

E eu achava que nem tinha nada a pedir.
Correto mesmo, seria agradecer.
Mas, ah, se a árvore é de pedidos, peçamos!
Esforço algum:
Foi o brilho do cetim vermelho alcançar meus olhos e desembestei a escrever em metros e metros de fita.
Nada me tira que foi o vermelho a despertar os pedidos.
Meus pedidos sempre tiveram tons azuis e vinham numa fila serena e organizada.
Os pedidos vermelhos, estes se atropelavam todos, escorregavam um por cima do outro no cetim, não ligavam pros borrões - eram todos igualmente urgentes.
Deixei lá. Todos lá.
Meus pedidos vermelhos espremidos de mim.
Porque tem mesmo sido a minha cor.
E o que em mim ainda não for vermelho, que passe a ser.
Porque é vivo, porque é alegre, porque é forte e porque é rebelde.
E porque de sangue azul, nada entendo. Sou mais a plebe!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Órfãos do Eldorado: o presente, o Jabuti e o recado.

Laranjeiras, Rio de Janeiro.
Eu, toda serelepe - como de costume - na fila pra entrar na Casa Rosa.
Aquela energia de "ah, como me sinto em casa no Rio e blá blá blá".
Aquela zombaria sobre quantas vezes já estive lá no ano.
Aquela explicação de que, na cabeça das pessoas eu vou muito mais ao Rio do que de fato vou.
E aí, descendo a ladeira da Rua Alice ao nosso encontro, aparece a amiga conterrânea com um presente de aniversário um mês atrasado, e não por isso menos amado, mas que no mínimo seria uma sacolinha a carregar a noite inteira enquanto se sambava. O que importa? Guardei no coração.
Era "Órfãos do Eldorado", o livro do Milton Hatoum, nosso vizinho regional, nosso companheiro de FLIP e parceiro de mesa e de tema literário do Chico.
Ouso dizer que o distinto senhor também foi alvo de uma paixonite repentina surgida lá por Paraty. Mas isso são outros quinhentos.
O fato é que hoje vi que o livro foi o 2º lugar na categoria Romance do Prêmio Jabuti 2009 e logo lembrei de todas as ocasiões: a que o conheci, em Paraty; a que me presentearam, no Rio; e a que li o prefácio, em casa.
Não tenho exatamente noção se a amiga conterrânea tinha consciência do presente que me dava (no fundo, acho que tinha sim!), mas a primeira coisa que o livro me disse foi isso:

Dizes: "Vou pra outra terra, vou pra outro mar.
Encontrei uma cidade melhor que esta.

Todo o meu esforço é uma condenação escrita.
E meu coração, como o de um morto, está enterrado.
Até quando minha alma vai permanecer nesse marasmo?

Para onde olho, qualquer lugar que meu olhar alcança,
vejo minha vida em negras ruínas
Onde passei tantos anos, e os destruí e desperdicei".

Não encontrarás novas terras, nem outros mares.
A cidade irá contigo. Andarás sem rumo
Pelas mesmas ruas. Vais envelhecer no mesmo bairro,
Teu cabelo vai embranquecer nas mesmas casas.
Sempre chegarás a esta cidade. Não esperes ir a outro lugar,
Não há barco nem caminho pra ti.
Como dissipaste tua vida aqui
Neste pequeno lugar, arruinaste-a na Terra inteira.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Meu seriado mulherzinha favorito

Sério, cara, quem precisa de seriados com 4 personagens dessas atuando na minha vida?

Diálogo 1:


- Não tem desculpa, não adianta. A não ser que ele tenha morrido. Aí tudo bem. Mas se ele não morreu, não dá mais, não dá.
- Calma, amiga, como assim? O que houve?

- Nada. Não houve nada. Simplesmente sumiu. E eu tô aqui igual uma idiota sentada no chão da área de serviço com um bando de detergentes falando baixinho e muito puta. Eu só queria saber se ele morreu, só isso. Posso ligar pra ele só pra saber se ele morreu?
- Não. Não pode. Não agora. Não essa hora. Não sentada no chão da área de serviço com um bando de detergentes.
- Ah, então tá, era isso que eu queria saber. Obrigada, amiga. Vou desligar que tá tarde, tá? Beijo.

Diálogo 2:
- Ele tá aqui.
- Com a namorada?
- Não sei, se for a namorada eles não são um casal que se beija...
- Droga, esse nanico idiota de cabeça chata...
- Cara, a cabeça dele é muito chata, muito!
- Manda ele à merda pra mim?
- Posso mesmo? Olha que eu mando. Tô bêba...

Diálogo 3:
- E aí, mandou mensagem?
- Eu não. Liguei, logo, porque não sou moleca!
- E aí?
- Aí ele foi o homem mais fofo do universo, aquela coisa, passou tudo, e eu sou uma idiota. Me interna.
- Interno. Interno.

Diálogo 4:
- Aí que ele me pediu desculpa, disse que tá arrependido, perguntou se eu ainda queria ir morar com ele...
- Sééério? E aí?
- Ah, perguntou se aquela certeza que eu tinha dele ser o homem da minha vida ainda existia. Eu disse que não.
- Gente, que reviravolta. Mas e aí, como tu estás te sentindo com tudo isso?
- Porra. Tô me sentindo a She-ra!


Pela honra de Grayskull!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O pé e o balde.


Pra quem anda com o pé encostado no balde,
chutar é um peteleco.

E um peteleco, agora, até que não cairia mal não.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Festeja Arnaldão!



Desde 2005, depois de um show na falecida Escápole, que prometi a mim que jamais deixaria de assistir o Arnaldo Antunes em qualquer oportunidade.
Ainda bem que adoro cumprir promessas! (Ao menos as relacionadas aos prazeres...).
O cenário era um mosaico de camisetas coloridas e a banda com figurino todo "nos trinques", de paletó e gravata. Claro que uma das mangas de Arnaldo era vermelha, assim como suas calças - ou não seria Arnaldo Antunes - e Curumin, na bateria, usava uns óculos no estilo "fui ao cinema em 1990 assistir Querida Encolhi as Crianças em 3D". Edgar Scandurra também estava por ali, logo à esquerda, em sua normalidade.
Showzaço. Banda sensacional. Repertório idem.
Trouxe o CD (Iê Iê Iê) pra casa, não só pelas músicas adoráveis (holofotes para "A sua casa", "Longe" e "Sua menina"), mas porque ele é lindo de morrer (e sou daquelas que acha que CD também é de se ver, além de ouvir: salve o projeto gráfico!).
A versão de "Judiaria" do Lupcínio Rodrigues é um espetáculo, talhada a la Arnaldão, já nem sei mais pensar na música de outra forma.
Mas, putz, ouvir aquela voz gravíssima de tão grave e ver aquela performance de dancinhas descompassadas a apresentar "Vou festejar" foi ápice total da noite!

Um salve a Arnaldo Antunes! Um salve aos tons graves! Salve o Iê Iê Iê!

Castiga-me infinitamente


Passava o trailer do filme Budapeste. Mal olhava a TV. Mas quando ouvi a frase - sem sequer atentar para o contexo - formou-se um novelo de lã ali pela garganta seguido de um "glub" seco e um inevitável palavrão. Ela dizia pra ele: "Castiga-me infinitamente".
Caramba! "Castiga-me infinitamente" é algo que nunca, NUNCA mais vai sair da minha cabeça. Tem um quê de culpa e vários quês de cinismo. Tem dor e tem gozo. É entrega absoluta e despudorada. E eu quero. Ah, quero!
"Castiga-me infinitamente" vai ecoar pra sempre por aqui. Em portugês, por óbvio. A personagem de Budapeste faz o pedido em húngaro: magiar végtelenül büntess meg, mas isso são outros quinhentos que eu deixo pro Chico explicar:

“Naquele dia entrei em sua casa com o propósito de acertar as contas e dar por encerrado aquele curso de merda. Mas antes de partir faria um pronunciamento em língua portuguesa, num português brasileiro e muito chulo, com palavras oxítonas terminadas em ão, e com nomes de árvores indígenas e pratos africanos que a apavorassem, uma linguagem que reduzisse seu húngaro a zero. Deixei de fazê-lo devido ao visível arrependimento de Kriska, que só não me pediu perdão porque inexiste tal palavra em húngaro, ou melhor, existe mas ela se abstém de usá-la, por considerar um galicismo. Como forma coloquial de se expiar uma culpa, existe a expressão magiar végtelenül büntess meg, isto é, castiga-me infinitamente, numa tradução imperfeita. Foi o que ela me disse, sabendo que eu compreenderia não as palavras, mas o sincero sentimento posto nelas. Afagou-me o rosto com a ponta dos dedos, fechou os olhos e sussurrou végtelenül büntess meg, mantendo em seguida os lábios abertos, e no meu entendimento ela pedia para eu lhe beijar a boca.”
(Budapeste, de Zsoze Kósta)