sábado, 22 de maio de 2010

Para todas as Marias

Há muitas Marias para cada João.
E até há alguns Joões para algumas Marias.
Digo algumas porque Marias - ainda que à procura de um João para si - sempre sobrarão, por serem tantas.
São muitas as Marias. Ah, são. Ou seria uma impressão?
Mas acontece que entre tantas Marias, e acontece que entre tantos Joões;
haverá aquela Maria e haverá aquele João,
que caminham a um: número ímpar e singular.
Por propósito ou por distração, não estão a se procurar.
Um João e uma Maria que não formam par.

- É claro que não deverão, essa Maria e esse João, ignorar uma trombada que, porventura, possam dar, um no outro, por aí.

A ligação que eu gostaria de fazer hoje

Fosse possível, hoje eu faria um interurbano pra Ana Amélia, contaria uma fofoca ótima e morreria de rir dos comentários dela.

Cara, tu estás assistindo essa nova novela das 8?
Lembra daquela ultima vez que te visitei em São Paulo?
É, em 2007! E aí tu me levaste pro Satyrianas, te embuletaste com aquele espanhol lindo-maravilhoso-olhos-azuis e me abandonaste (muito bem acompanhada) com tuas amigas atrizes e loucas, lembra?
Pois então. Teve aquele carinha que conheci, achei lindo, bati papo horrores, achei que ele era totalmente meu número, cabelos ruivos e sedosos, divertido e coisa e tal.
Esse mesmo!
Lembra que fiquei toda animada, contei piada, discuti o sexo dos anjos, e até encarei uma fila enorme pra assistir uma peça com uma ex-Malhação que faria sexo com o respectivo namorado, só porque eram amigos dele?
Hahahahahaha. Lembra?
E lembra que quando eu já estava super feliz com a ideia de ter filhos ruivos ele vira pra mim num suspiro e diz "Ai, tô morrendo de saudades do meu namorado que está viajando..." e eu esculhambei porque ele deveria ter me avisado que era gay há pelo menos 3 horas?
Pois então.
Ligo na Globo, novela das 8, e lá está o guri.
Acreditas?

E morro de rir só de imaginar os comentários que viriam do outro lado da linha.
Thanks, Ana. Pelas histórias esdruxulas e pelo humor que transcende e me faz gargalhar até com piadas que não tiveram tempo de acontecer.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

TIrinhas Carnavalescas

As TIrinhas devem ser lidas com sotaque. InDIspensável a caixa alta para acentuar todos os "Tês" e "Dês". É como deve ser em bom pérnambuquês!

1 - Alceu Valença, Lenine e DJ Dolores são onipresentes. PraTIcamenTE a SanTÍssima TrindaDE.

2 - Aquele guarda-chuva coloridinho de frevo não é mero adereço carnavalesco. Ele é a única sombra-amiga-companheira possível duranTE várias horas. Bloqueador solar pra acompanhar, não custa.

3 - Quem é que pode dizer que já levou uma bofetada de um Boneco de Olinda? Não, não é pra qualquer um. E DIgo mais: vai ter mão pesada assim lá na Ladeira da MisericórDIa!

4 - Atenção! Ali pelo Largo de São Bento, quarteirão da Prefeitura de Olinda existe um buraco negro, um Triângulo das Bermudas, uma Ilha de Lost, ou qualquer coisa do gênero. Não marque encontros por ali, vai por mim!

5 - ExisTE um botão coleTIvo que é, de alguma forma, acionado todas as vezes que toca a Vassourinha e faz as pessoas pularem. Não importa quantas vezes ao DIa toque, não importa há quantas horas você está em pé. Vassourinha+Botão= Pulos.

6 - Conselhos de pernambucanos devem ser levados a sério: "Moço, como eu chego no supermercado?". Play no sotaque: "Ólhi, minha filha, você tá vendo esse caminho aqui? Pois siga. Pegue seu DÉsTIno e vá. Mar-num-saia-do-seu-DÉsTIno por nada nesse mundo, que você chega lá!". Imagina se ao invés do caminho do supermercado fosse perguntado o caminho a seguir na vida!

7- Ouvir a galera gritar em bom pérnambuquês pela Gabi Amaranto, no Rec Beat, não tem preço. Hahahahah. "DIva, DIva, DIva...". Quem precisa da Beyoncé?

8 - O Galo da Madrugada é uma experiência antropológica. PrincipalmenTE se você está no camarote do PCdoB localizado em um Motel. É!

9 - Paira no ar, o tempo todo, um conviTE irrÉsisTÍvel ao entorPÉcimento. Fato.

10 - Ir a uma balada chamada "Que Putz, Sem Loção" e se deparar com um cartaz na portaria com os DIzeres "Proibida a entrada de Débora Secco" é o tipo de coisa que só o Recife faz por você.

11 - É de uma generosidade sem tamanho dos deuses do Carnaval permitir que uma alérgica à cerveja beba intensamente por 3 dias sem qualquer reação (Skol a R$1,00!!!). Passei ao Ice nos últimos dias sem birra.

12 - Por mais fundo que se cave o prato de macaxeira da Casa de Noca, ela não acaba nunca!

13 - Desfaz-se o mito: é possível dançar frevo! Desde que em slow motion.

Obs: a lista de TIrinhas poderá crescer conforme a memória se restabelecer.

Que se chamava Carnaval, Carnaval, Carnaval...

Hino do Elefante de Olinda*

Ao som dos clarins de momo
O povo aclama com todo andor
O elefante exaltando as suas tradições
E também seu esplendor

Olinda, este meu canto
Foi inspirado em teu louvor
entre confetes, serpentinas, venho te oferecer
Com alegria o meu amor

Olinda, quero cantar
À ti, esta canção
Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar
Faz vibrar meu coração
De amor a sonhar, minha Olinda sem igual

Salve o teu carnaval

*a ideia era substituir a musica por um post digno do Carnaval. Mas a música é hino, e fica. Outro post virá! :-)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Up in the air

Eu poderia escrever zilhões de coisas sobre "Up in the air". Até evitei o bate-papo pós cinema porque acho que só pararia de falar com a chegada da corriqueira rouquidão.

Como adepta e entusiasta da filosofia "viajar é preciso" a identificação com a história é automática e o contexto em que se passa a trama me é muito familiar.

O fato é que há um monte do Ryan (personagem do George Clooney) nessa nossa geração cool de desapegados, descompromissados, sempre "em frente e avante" para abraçar o mundo inteiro sem na verdade abraçar ninguém.

Visto a carapuça e digo, sem pestanejar: aceitaria AGORA uma vida que significasse viajar, viajar e viajar. Conhecer gente, lugares, culturas, sem passagem de volta, sem data de retorno. Tranquilo. Vamo lá. Saudade administra-se.

Mas o quanto há de verdade nesse desapego?

Daí volta-se ao filme. "Up in the air" retrata a solidão do tal homem moderno, para quem a ausência de raízes e ligações pessoais não é um problema, mas uma maneira de viver a vida. O personagem não finca os pés, passa mais tempo em deslocamentos aéreos do que em terra. Tem mais afinidades com aeromoças e comissários de bordo do que com família e amigos. Fica mais à vontade com os procedimentos de embarque e desembarque do que em uma reunião familiar.

Claro que há muita caricatura em tudo isso, mas é possível levar uns bons tapas na cara.

Por que tanto medo de "estacionar"? Viajamos pra ir ao outro lugar ou para fugir de onde estamos? Ou porque não achamos o que procuramos? Ou porque, simplesmente, nem descobrimos o quê procurar?? Daí inventamos uma justificativa qualquer (no filme, a meta do personagem é voar 10 milhões de milhas) para dar algum sentido a essa ansia de não parar.

A cena final é perfeita em retratar essa confusão. Ryan tem, em milhagens, a possibilidade de voar para onde quiser. Poderia dar diversas voltas ao mundo. Mas termina imóvel frente a um enorme painel de embarques com incontáveis destinos a lhe piscar, sem saber pra onde ir. Qual destino, afinal, faz sentido quando não há pelo que ficar ou pelo que voltar?

Não, a vida NÃO cabe em uma mochila. E as relações pessoais são um peso IMPRESCINDÍVEL de se carregar. Necessitamos SIM dos laços para (bem) viver, ainda que estejamos nos moldando às novas formas de atá-los.

BAUMAN que me perdoe, mas, no final das contas, a vida, a modernidade, as relações, não são tão líquidas assim...

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A gente sabe, só não lembra na hora

Aí a gente sai despejando aqueles conselhos que ninguém mais aguenta ouvir, do tipo "ocupe a cabeça", "dê tempo ao tempo", "preencha os espaços com outros conteúdos" e coisa e tal. Logo em seguifa a frase feita: "uma hora passa!"

Mas, sério, é sempre tudo isso mesmo e não outra coisa. É esse o script. Tudo um grande clichê. Somos personagens repetitivos, como nas novelas do Manoel Carlos, sem o Leblon.

A nossa sorte é que, para além das previsíveis cenas dos próximos capítulos, percebemos que, sim (!), somos co-autores dessa bagunça.

E sem ensaio, sem cortes e sem saber como vai ser o final, escolhemos um caminho pra seguir no dia seguinte e em todos os outros também. Escolhemos um caminho pra seguir e outros tantos caminhos para desviar. Porque escolher significa também (des)escolher! E desviar também pode ser um caminho. E no fim das contas nem tem certo e errado. O que tem, é o que tem.

E a gente bem sabe de tudo isso, só não lembra na hora. Acontece que, na hora, sabemos ao mesmo tempo de muitas outras coisas e não dá tempo de organizar todos os saberes. Saber demais e saber de menos, cada qual traz o seu cada qual.

Aí chega o clímax, o tão esperado momento, em slowmotion, em que percebemos que aqueles conselhos de sempre, as frases feitas, as piadas prontas, são das coisas mais bonitas desse mundo, o que no fundo, naquela desorganização de saberes, já sabíamos. Só demoramos a lembrar – o que não importa nenhum pouco, porque demorar já não tem a menor importância quando tudo fica leve.

Aliás, logo percebemos que ser leve também é das coisas mais bonitas desse mundo! Ser leve fala palavrão porque não há palavra ou palavrinha que exprima tão bem.

Ser leve tem braços pra cima, usa vestido. Ser leve tem cabelos soltos e o vestido, aquele que usa, é rodado e colorido.

E começamos a antever que o episódio já se aproxima do fim, e dá medo, dor de barriga, a maior ziquizira – tudo muito normal quando se está liberado para fazer qualquer coisa que quiser.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Pra começo de conversa...


O ano começou assim.
E o Universo está a meu favor.
É isso.

* foto de Luena-Zi

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

domingo, 29 de novembro de 2009

Fora do roteiro.

Foram só 4hs de sono, mas acordo desperta. Desperta apesar da sensação de embrulho no estômago, não de ressaca, mas de que há um dia totalmente inconveniente pela frente. Porque já é o dia seguinte, porque já é hoje quando bem podia ainda ser ontem.
Enfim.
Daí aviso a todo mundo que estou na fossa.
Na fossa, tive uma conversa super bem humorada com a "senhôura" minha mãe sobre amizades coloridas, na medida do possível, é claro.
Na fossa, esperei uma hora, de boa, entre banco e casa de câmbio, resolver-se uma transação financeira internacional para uma amiga.
Na fossa, corri 5km na academia, sem bico e sem tédio.
Na fossa, saí para me distrair (e esquecer da fossa...) e fui a um desfile, emendei pr´uma seresta na praça, segui para um violão cheio de Chico Buarque e ainda sobrou energia para rock, equilibrar latinhas na cabeça, 3 caipirinhas por R$10,00 e um temaki antes de voltar pra casa, às 5h da manhã.
(...)
E aí, nesse horário do dia em que tudo se esclarece - às 5h da manhã! - percebi que não há fossa nenhuma, que eu não vim com esse gene, e que o final deste episódio fugiu completamente do roteiro.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Pedidos vermelhos

Árvore dos pedidos. Círio 2009. Praça da Sé.

E eu achava que nem tinha nada a pedir.
Correto mesmo, seria agradecer.
Mas, ah, se a árvore é de pedidos, peçamos!
Esforço algum:
Foi o brilho do cetim vermelho alcançar meus olhos e desembestei a escrever em metros e metros de fita.
Nada me tira que foi o vermelho a despertar os pedidos.
Meus pedidos sempre tiveram tons azuis e vinham numa fila serena e organizada.
Os pedidos vermelhos, estes se atropelavam todos, escorregavam um por cima do outro no cetim, não ligavam pros borrões - eram todos igualmente urgentes.
Deixei lá. Todos lá.
Meus pedidos vermelhos espremidos de mim.
Porque tem mesmo sido a minha cor.
E o que em mim ainda não for vermelho, que passe a ser.
Porque é vivo, porque é alegre, porque é forte e porque é rebelde.
E porque de sangue azul, nada entendo. Sou mais a plebe!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Órfãos do Eldorado: o presente, o Jabuti e o recado.

Laranjeiras, Rio de Janeiro.
Eu, toda serelepe - como de costume - na fila pra entrar na Casa Rosa.
Aquela energia de "ah, como me sinto em casa no Rio e blá blá blá".
Aquela zombaria sobre quantas vezes já estive lá no ano.
Aquela explicação de que, na cabeça das pessoas eu vou muito mais ao Rio do que de fato vou.
E aí, descendo a ladeira da Rua Alice ao nosso encontro, aparece a amiga conterrânea com um presente de aniversário um mês atrasado, e não por isso menos amado, mas que no mínimo seria uma sacolinha a carregar a noite inteira enquanto se sambava. O que importa? Guardei no coração.
Era "Órfãos do Eldorado", o livro do Milton Hatoum, nosso vizinho regional, nosso companheiro de FLIP e parceiro de mesa e de tema literário do Chico.
Ouso dizer que o distinto senhor também foi alvo de uma paixonite repentina surgida lá por Paraty. Mas isso são outros quinhentos.
O fato é que hoje vi que o livro foi o 2º lugar na categoria Romance do Prêmio Jabuti 2009 e logo lembrei de todas as ocasiões: a que o conheci, em Paraty; a que me presentearam, no Rio; e a que li o prefácio, em casa.
Não tenho exatamente noção se a amiga conterrânea tinha consciência do presente que me dava (no fundo, acho que tinha sim!), mas a primeira coisa que o livro me disse foi isso:

Dizes: "Vou pra outra terra, vou pra outro mar.
Encontrei uma cidade melhor que esta.

Todo o meu esforço é uma condenação escrita.
E meu coração, como o de um morto, está enterrado.
Até quando minha alma vai permanecer nesse marasmo?

Para onde olho, qualquer lugar que meu olhar alcança,
vejo minha vida em negras ruínas
Onde passei tantos anos, e os destruí e desperdicei".

Não encontrarás novas terras, nem outros mares.
A cidade irá contigo. Andarás sem rumo
Pelas mesmas ruas. Vais envelhecer no mesmo bairro,
Teu cabelo vai embranquecer nas mesmas casas.
Sempre chegarás a esta cidade. Não esperes ir a outro lugar,
Não há barco nem caminho pra ti.
Como dissipaste tua vida aqui
Neste pequeno lugar, arruinaste-a na Terra inteira.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Meu seriado mulherzinha favorito

Sério, cara, quem precisa de seriados com 4 personagens dessas atuando na minha vida?

Diálogo 1:


- Não tem desculpa, não adianta. A não ser que ele tenha morrido. Aí tudo bem. Mas se ele não morreu, não dá mais, não dá.
- Calma, amiga, como assim? O que houve?

- Nada. Não houve nada. Simplesmente sumiu. E eu tô aqui igual uma idiota sentada no chão da área de serviço com um bando de detergentes falando baixinho e muito puta. Eu só queria saber se ele morreu, só isso. Posso ligar pra ele só pra saber se ele morreu?
- Não. Não pode. Não agora. Não essa hora. Não sentada no chão da área de serviço com um bando de detergentes.
- Ah, então tá, era isso que eu queria saber. Obrigada, amiga. Vou desligar que tá tarde, tá? Beijo.

Diálogo 2:
- Ele tá aqui.
- Com a namorada?
- Não sei, se for a namorada eles não são um casal que se beija...
- Droga, esse nanico idiota de cabeça chata...
- Cara, a cabeça dele é muito chata, muito!
- Manda ele à merda pra mim?
- Posso mesmo? Olha que eu mando. Tô bêba...

Diálogo 3:
- E aí, mandou mensagem?
- Eu não. Liguei, logo, porque não sou moleca!
- E aí?
- Aí ele foi o homem mais fofo do universo, aquela coisa, passou tudo, e eu sou uma idiota. Me interna.
- Interno. Interno.

Diálogo 4:
- Aí que ele me pediu desculpa, disse que tá arrependido, perguntou se eu ainda queria ir morar com ele...
- Sééério? E aí?
- Ah, perguntou se aquela certeza que eu tinha dele ser o homem da minha vida ainda existia. Eu disse que não.
- Gente, que reviravolta. Mas e aí, como tu estás te sentindo com tudo isso?
- Porra. Tô me sentindo a She-ra!


Pela honra de Grayskull!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

O pé e o balde.


Pra quem anda com o pé encostado no balde,
chutar é um peteleco.

E um peteleco, agora, até que não cairia mal não.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Festeja Arnaldão!



Desde 2005, depois de um show na falecida Escápole, que prometi a mim que jamais deixaria de assistir o Arnaldo Antunes em qualquer oportunidade.
Ainda bem que adoro cumprir promessas! (Ao menos as relacionadas aos prazeres...).
O cenário era um mosaico de camisetas coloridas e a banda com figurino todo "nos trinques", de paletó e gravata. Claro que uma das mangas de Arnaldo era vermelha, assim como suas calças - ou não seria Arnaldo Antunes - e Curumin, na bateria, usava uns óculos no estilo "fui ao cinema em 1990 assistir Querida Encolhi as Crianças em 3D". Edgar Scandurra também estava por ali, logo à esquerda, em sua normalidade.
Showzaço. Banda sensacional. Repertório idem.
Trouxe o CD (Iê Iê Iê) pra casa, não só pelas músicas adoráveis (holofotes para "A sua casa", "Longe" e "Sua menina"), mas porque ele é lindo de morrer (e sou daquelas que acha que CD também é de se ver, além de ouvir: salve o projeto gráfico!).
A versão de "Judiaria" do Lupcínio Rodrigues é um espetáculo, talhada a la Arnaldão, já nem sei mais pensar na música de outra forma.
Mas, putz, ouvir aquela voz gravíssima de tão grave e ver aquela performance de dancinhas descompassadas a apresentar "Vou festejar" foi ápice total da noite!

Um salve a Arnaldo Antunes! Um salve aos tons graves! Salve o Iê Iê Iê!

Castiga-me infinitamente


Passava o trailer do filme Budapeste. Mal olhava a TV. Mas quando ouvi a frase - sem sequer atentar para o contexo - formou-se um novelo de lã ali pela garganta seguido de um "glub" seco e um inevitável palavrão. Ela dizia pra ele: "Castiga-me infinitamente".
Caramba! "Castiga-me infinitamente" é algo que nunca, NUNCA mais vai sair da minha cabeça. Tem um quê de culpa e vários quês de cinismo. Tem dor e tem gozo. É entrega absoluta e despudorada. E eu quero. Ah, quero!
"Castiga-me infinitamente" vai ecoar pra sempre por aqui. Em portugês, por óbvio. A personagem de Budapeste faz o pedido em húngaro: magiar végtelenül büntess meg, mas isso são outros quinhentos que eu deixo pro Chico explicar:

“Naquele dia entrei em sua casa com o propósito de acertar as contas e dar por encerrado aquele curso de merda. Mas antes de partir faria um pronunciamento em língua portuguesa, num português brasileiro e muito chulo, com palavras oxítonas terminadas em ão, e com nomes de árvores indígenas e pratos africanos que a apavorassem, uma linguagem que reduzisse seu húngaro a zero. Deixei de fazê-lo devido ao visível arrependimento de Kriska, que só não me pediu perdão porque inexiste tal palavra em húngaro, ou melhor, existe mas ela se abstém de usá-la, por considerar um galicismo. Como forma coloquial de se expiar uma culpa, existe a expressão magiar végtelenül büntess meg, isto é, castiga-me infinitamente, numa tradução imperfeita. Foi o que ela me disse, sabendo que eu compreenderia não as palavras, mas o sincero sentimento posto nelas. Afagou-me o rosto com a ponta dos dedos, fechou os olhos e sussurrou végtelenül büntess meg, mantendo em seguida os lábios abertos, e no meu entendimento ela pedia para eu lhe beijar a boca.”
(Budapeste, de Zsoze Kósta)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Sobre a arte da dar respostas a perguntas sem respostas

Aí você passa anos-luz pensando na vida. Entra e sai de crises existenciais. Questiona deus, o mundo, os astros, os búzios. Funde neurônios. Procura terapia. Enche os ouvidos dos amigos e do travesseiro. Enche a cara no fim de semana. Foge. Encara de frente. Enfim, vive toooodo aquele processo árduo, dolorido e desgastante de quem está insatisfeito, porém, acomodado e... pá! Um belo dia dá um estalo de lucidez, bate uma coragem desmedida, você se sente dona de si, Saturno está passando na casa certa, ou por qualquer outra razão possível que nunca se saberá exatamente qual é, você chuta o pau da barraca / toma a decisão / manda tudo pros infernos - tudo isso não sem sofrimento, pânico, medo, pavor e todos os demais sinônimos que dão gastura.

Feita a introdução, segue a cena:

Chefe do chefe: - Mas porque você quer sair? Eu não senti muita firmeza na justificativa que me deram...

Eu: - Ah, acho que já tava na hora de mudar, blá blá blá, crises existenciais, blá blá blá, queria experimentar coisas diferentes, blá blá blá... (tentei, juro!)

Chefe do chefe: - Mas quais são os seus planos? Você tem planos, né? Está saindo daqui pra trabalhar aonde?

Eu: - Então. Não sei ainda muito bem. Na verdade, vou pensar quand...

Chefe do chefe: - Ah, não. Então não acredito. Por que você não diz a verdade?

Eu: - Então tá. A verdade é que eu descobri que estou grávida e desde então vi que minha verdadeira vocação é ser mãe e decidi dedicar o resto da minha vida ao meu filho que vai nascer... a advocacia se tornou incompatível com o novo sentido da minha vida.

Chefe do chefe: - Err... Ah, então tá, minha filha, entendo como são essas coisas. Mas boa sorte nessa empreitada, a maternidade muda mesmo as pessoas, blá blá blá...

Pô. O ser humano sofre, passa noites insones pensando na complexidade da vida e tem que resumir tudo numa frase que faça sentido ou tenha crédito pra alguém que não tem a MENOR idéia do que... Ah, cara, chega uma hora que dá preguiça de explicar né? E essa coisa de dar a resposta perfeita para que não hajam mais perguntas, olha, É UMA ARTE! Passados uns meses, e se necessário for, encontro uma resposta branda para a barriga que não crescerá.

Depois da tempestade...

Não somos mais que uma gota de luz
Uma estrela que cai, uma fagulha tão só
Na idade do céu...
Não somos o que queríamos ser
Somos um breve pulsar em um silêncio antigo
Com a idade do céu...
Calma! Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure, deixe que o tempo cure
Deixe que a alma tenha a mesma idade
Que a idade do céu...
Não somos mais que um punhado de mar
Uma piada de Deus, um capricho do sol
No jardim do céu...
Não damos pé entre tanto tic tac
Entre tanto Big Bang
Somos um grão de sal
No mar do céu...
Calma! Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure, deixe que o tempo cure
Deixe que a alma tenha a mesma idade
Que a idade do céu.
(Paulinho Moska - A Idade do Céu)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sobre nomes e sobrenomes

É verdade que na Certidão de Nascimento consta Maíra Guimarães de Alencar, mas pouca gente que me conhece vai associar o nome à pessoa se após o Maíra estiver apenas o Alencar. Fato.
Entre os meus, sou, na verdade, Maíra Guimarães e ponto.
Nada contra a família do meu pai que é linda e gigante, e menos ainda contra o sobrenome. Acho Alencar digníssimo, nome de gente forte e classuda, mas sempre fui mesmo Maíra Guimarães.

Lá pelo 4º ano de um namoro que não vingou, parei pra pensar nisso. Putz, se eu casar e me tornar Maíra+Alencar+NomeDoMarido vou ser outro alguém e nada daquela que fui há vinte e tantos anos. Além disso, o então namorado era Fulano Barreto (apesar do último sobrenome ser Lima). E meus filhos? Como é que os filhos da Maíra Guimarães e do Fulano Barreto seriam Alencar+Lima?? Crise de identidade total nos moleques.

Aí que eu decidi que de um jeito ou de outro vou ser Guimarães pra sempre. Mesmo que esse discurso não signifique nenhuma grande rebeldia da minha parte diante da absoluta falta de perspectiva de casamento na minha vida (hahahahahah), aviso logo: o Guimarães fica, não tiro, não tiro e não tiro. E vai nos filhos, quero nem saber!

E pensando assim nessa coisa de nome e sobrenome, escrevendo esse texto que leva do nada pra lugar nenhum, tomei outra decisão inútil.
É que acho que meu apego ao Guimarães é muito pelo seu plural. Sabe? Ser tudo e tanto que não caberia num nome no singular? Que nem o Vinícius de Moraes que era tão tudo e tanto que foi plural de nome e sobrenome! (Ele jamais poderia ser algo como Vinício de Moral, jamais!).
Então, voltando à decisão inútil: só acrescento ao meu nome outro nome (em outras palavras: só caso/me uno/tenho filhos com alguém) se for no plural!

Tipo: Maíra Guimarães Sanches, Novaes, Bentes, Menezes, Soares, Bastos, Meireles, Rodrigues, Sales, Campos, Montes, Fernandes, Marques, Assis, Medeiros, Paes, Reis, Vasconcelos...

Hahahahahah.

Como se as coisas estivessem fáceis, né?

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Julho, eu gosto.

Taí um projeto de vida interessante: morar em Belém apenas no mês de julho.
Andei pensando nisso e precisava deixar registrado. Vai que um belo dia descubro um talento obscuro e consigo viver de algo que me possibilite algumas excentricidades, né?

Julho é lindo. Não tem trânsito, não tem menino indo pra escola (e pra quem mora cercada pelos maiores colégios da cidade isso faz uma diferença que...), não tem chuva (ou ao menos chove-se muito pouco), não tem quase barulho e, o principal, os dias são muito, MUITO, muito bonitos! Cada fim de tarde que... ééééégua.

Outro item sensacional que contribui para esta paixão julina é que tem programação noturna a semana inteira. E sim, encontra-se os amigos deeesde a segunda-feira! E eu a-do-ro sair dia de semana, muito mais que sextas ou sábados. Aquela coisa, né, excentricidades.

O trabalho é sempre meio manso, pois não há burro de carga que consiga produzir 100% num calor infernal. Ouvi esse papo numa época em que não trabalhava e tinha certeza que era pura preguiça. Pois não é. Há algo nesse "quente e úmido" que suga as nossas energias, atormenta e inviabiliza a produção. Além do mais, os clientes parecem estar tão mais ocupados com o verão que deixam a gente bem mais em paz.

Ih, e já ia esquecer. Morar em Belém é ter sempre amigos indo e vindo. Sempre alguém vai embora. Sempre tem outro alguém voltando. Aí, chega julho, verão, sempre aparecem uns amigos amados a nos visitar - esse pensamento vale também para outubro e dezembro, é incrível como a população de gente querida dobra nesses meses.

Ó, talvez até dê pra aumentar esse tempo de estadia do projeto de vida: podia morar em Belém em julho, outubro e dezembro. Que tal?

Se bem que essas tardes lindas, como as de julho, não há!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

"Lá sou amiga do rei..." (ou do Príncipe)

Ah, queria muito postar dia a dia da FLIP e todos os detalhes ali vividos, mas enfim, tanto tempo já se passou e o maldito cotidiano reinou. Pra não perder as lembranças, posto o texto escrito para o www.guiart.com.br numa espécie de resumão que só fez aumentar meu banzo... E aí o que for lembrando e que tenha ficado de fora, acrescento e, pá, fica tudo certo, hehehe.

Olívia Hime disse que a primeira FLIP a gente nunca esquece e ela tem razão.
Chegar a Paraty e se deparar com as suas tendas e ornamentos, tudo montado no centro histórico e suas pedras sabão, é mesmo como entrar num mundinho mágico, um universo paralelo onde todo mundo festeja a literatura. Árvores de livros, bonecos de papel marchê na praça, balõezinhos de São João por todo lado. Uma cidade enfeitada de Manuel Bandeira.

Encantamentos à parte, assistir aos debates dos autores é maravilhoso. E exceto pela mesa badalada do Chico Buarque, cujos ingressos esgotaram em minutos, o acesso é super democrático: por R$30 assiste-se na Tenda dos Autores, por R$10 na Tenda do Telão, e caso não se consiga mais nem um, nem outro, basta estender uma canga na grama e se concentrar, o telão é visível a todos. Paulo Betti que o diga, estava sempre por ali.

Das pérolas que pude assistir, preciso citar Domingos de Oliveira, a falar de “Separações” e a invenção de uma nova moral nas relações amorosas, a nossa estaria ultrapassada; Sophie Calle e Grégoire Bouillier, ex-amantes que se reencontraram em Paraty após um rompimento por e-mail, protagonizaram a melhor lavagem de roupa suja da história; Antonio Lobo Antunes, escritor português de coração paraense, em uma ode ao oficio de escrever, foi certamente um dos pontos altos da FLIP; e claro, o Chico, que a meu ver fez o impossível: uma cidade inteira parar em silêncio absoluto para ouvir a leitura de um trecho de “Leite Derramado”, respeito que se estendeu a Milton Hatoum, seu companheiro de mesa e que não merecia menos.

Na Casa da Cultura, o pernambucano Marcelino Freire batia panela no juízo dos leitores, acompanhado do angolano Ondjaki e do carioca Marcelo Moutinho, todos autores do Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa. Dali saíram as melhores cutucadas ao (des)acordo ortográfico que se pode imaginar. E viva o trema! E viva a diferença!

Voltando aos Hime, Francis e Olívia fizeram um show lindo na Tenda dos Autores. Ele, muito feliz. Ela, muito rouca, tratou de avisar que não era gripe suína. Claro que todos tinham esperança de uma participação do Chico, o que logo se desfez quando Francis cantou “Meu Caro Amigo”: “o Chico aproveita pra também mandar lembranças, a todo o pessoal, adeus”.

E no meio de tudo isso, seguindo um burburinho de festa e cometendo a ousadia de entrar na casa do príncipe, D. João Henrique de Orleans e Bragança, me deparo com um sarau de poesias no quintal real. Uma lareira convidativa, o príncipe ao lado, e a noite termina com um flautista tocando “Carinhoso”, música preferida de Manuel Bandeira, seguida de uma proposta de abraço coletivo para ir embora sob as bênçãos dos poetas. Juro!

Na volta pra casa fica muito claro que a FLIP cumpre seu objetivo. Da primeira poltrona do ônibus, olho pra trás e a constatação é linda: todas as pessoas, sem exceção, têm livros abertos nas mãos


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* É preciso acrescentar que Paulo Betti era encontrado e reencontrado a todo momento, em todos os lugares. Ah, detalhe, 5 dias com a mesma blusa de frio. Campanha do agasalho pra ele, já!


* Ficou de fora o Davi Foenkinos. Autor francês, maluco, que se auto-intitula cômico-depressivo e de fato o é. A mesa dele foi sobre o livro "Em caso de felicidade". Um papo sobre ditados polacos inventados, um personagem dono de uma agencia de viagens para quem não viaja, outro colecionador compulsivo que frequentava o Colecionadores Anônimos (onde todos sentavam exceto aquele que colecionava momentos em pé). Dele, comprei "O Potencial Erótico da Minha Mulher" e fui toda serelepe falar francês... ele me respondeu em inglês, espanhol, português, tudo, menos francês. Ok.


*Iiiih, e a descoberta da cachaça de Paraty? Enfim, foi conhecer a Gabriela e amor ao primeiro gole. Tornou-se, a Gabriela, o nosso "Floral de Bar", hehehehe. E viva os trocadilhos!