segunda-feira, 30 de maio de 2011

AVISO

"Imagina, você, que eu estava sem meus óculos! Sabe que quando eu estou sem óculos já não escuto muito bem... E aí, eu estava tão rouca, mas tão rouca, que até a voz da minha consciência tava saindo assim muito baixiiiiinha. Quase afônica a consciência minha. Não ouvi, né. Tsc, tsc..."

Ou seja.

Existe esse talento horroroso incrível para nunca faltar à ponta da língua uma explicação daquelas que desarma qualquer ser humano do outro lado do diálogo que teria todos os motivos do mundo para dar uma senhora bronca.

Portanto, VOCÊ AÍ que está prestes a cometer um desatino, um aviso: não venha me pedir conselhos, não!

Porque eu tenho uma caixinha cínica mágica cheia de desculpas ótimas para todos os meus próprios e posso acabar emprestando alguma.

P.S. Se for um desatino dos bons, tenho uma seção especial só com as melhores. Não se aproxime! (Se não quiser MESMO cometê-lo).

terça-feira, 24 de maio de 2011

E se...?

- O que eu faço com a minha saudade? Dobro e guardo no bolso?
- Teu pijama tem bolso? Porque tenho um pijama que tem bolso e nunca entendi pra que servia. Acho que descobriste.
- Não vejo utilidade melhor.
- E se ao dobrar a saudade, a saudade dobrar?

Talvez nós tenhamos descoberto a serventia de um bolso no pijama.
Será pra dobrar a saudade e guardar ali antes de dormir?

Tem saudade dobradinha que nem Origami. Colorida e com cheirinho nostálgico.
Tem mesmo! Mas também tem saudade bolinha de papel com chiclete grudado dentro.
Saudade grudenta, preguenta, que vai e volta, mancha, faz sujeira...argh!

E se esquecer a saudade no bolso e pôr o pijama pra lavar?
Será que saudade desmancha na água?
Se bem que a saudade já é mesmo meio molhada...

E se a saudade dobrada, redobrada e molhada, criar vida própria e se desdobrar por aí?
Levemos a saudade para passear!



*Este post foi escrito a muitas mãos, via facebook, com a colabaração de Luana Oliveira, de Gilda Ribeiro e de Rafael Guedes que teve um ataque de fofura e disse que leva a saudade que sente da gente no bolso d´uma bermuda de usar no sítio. =)

domingo, 22 de maio de 2011

Para guardar rancor/Para guardar amor

O tema debatido noite a dentro foi rancor. Pesado, né? E se pesa só de falar ou escrever, imagina o peso do acúmulo de um monte desses no decorrer da vida.
Eram duas as protagonistas do debate. Uma lembrava de já ter sido muito rancorosa e de hoje, simplesmente, não ser mais. Ou quase não ser. E a outra, dona de um dos melhores corações já vistos, se intitulava rancorosa com orgulho.
Claro que todos os demais debatedores envolvidos, todos muito queridos, sabiam que nem aquela havia garantido seu lugarzinho no céu por estar no time dos sem-rancor e muito menos a outra deixava de ser a dona de um dos melhores corações que conheciam por carregar nele esse desagradável peso. Mas a história rendeu.
A primeira contava que se alguém aprontava com ela na quinta-feira, no sábado já havia esquecido totalmente as razões da mágoa. Que mágoa?. A duração do seu rancor era de mais ou menos 48hs. Ia ficando pequeno até sumir. A outra falava com as mais vívidas lembranças de coisas que aconteceram há anos. E tudo seguia do mesmo tamanho.
E com toda a leveza que se era possível, graças ao amor que os debatedores tinham entre si, construiu-se e destruiu-se argumentos, fez-se piadas, detectou-se confusões. Porque a gente confunde mesmo as coisas. Será que não guardar rancor é sinônimo de se deixar fazer de bobo? E será que para fazer valer o amor-próprio é preciso guardar rancor? Então é assim: os bobos, deixam pra lá, e os cheios de personalidade, levam a ferro e fogo. Que nada! Ali a prova, eram duas bobas e cheias de personalidade, mas com níveis de rancores absolutamente diferentes, e tudo bem.
De qualquer forma, é certo que voltaram pra casa, as duas, ponderando seus rancores (e não-rancores). Soube que a primeira decidiu fazer um caderninho, escrever na capa "Para Guardar Rancores" e anotar ali as 'malvadezas' que lhe fizessem para o caso de precisar lembrá-las. É que ficou dito no debate que é bom, às vezes, lembrar desses desagrados. Não entendeu muito quando nem porquê, mas vai que de fato seja... E ela ficou de recomendar à outra que fizesse um caderninho e escrevesse na capa "Para Guardar Amores", e para cada anotação de amor ela podia riscar um rancor até, quem sabe, zerar a balança.
O dos rancores já foi feito. Por enquanto segue com as páginas todas em branco e bem guardado numa gaveta. Imagina-se que o que for, porventura, escrito, acabará virando anedota. Ou então ele pode ficar ali, na gaveta, em branco e esquecido. É também um destino provável.

...Ah, essas coisas que se guardam em gavetas nunca visitadas. Pra quê? Guardar rancor acumula mofo, dá ácaro. E como já é de conhecimento geral, eu sou alérgica. Não posso. Recomendações médicas.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Chororô

Aquele dia em que a gente chega em casa dando um reino por um banho, cama e pés pra cima e...cadê as chaves? Minha expectativa era de passar pelo menos duas horas pro lado de fora esperando alguém chegar. Juro que deu vontade de chorar.
Mas aí descobri que no hall do prédio tem um banco de balanço. Não é um banco que balança, nem é bem um banco, é tipo uma namoradeira, assim, acolchoadinha, gostosa, e que balança.
Me estiquei ali, peguei um livro na bolsa pra ler e pronto. Estava apta a sobreviver às próximas duas horas. Queria escrever um bilhetinho e colocar por baixo da porta da síndica pra agradecer. Tava tudo bem ali, sério. Deu até vontade de chorar de novo.
Opa, péra lá, chorar de novo? Como assim? Pois é. Foi quando me dei conta - pra fora de casa, suja, cansada, pernas esticadas no banco que balança do hall do prédio - que eu ando muito chorona, muito!
Guardei o livro, a síndica apareceu, eu ofereci o maior sorriso que eu tinha, ela riu sem jeito e apressou o passo, o que acho compreensível.
E aí decidi passar a próxima hora fazendo um pequeno dossiê dessa minha fase “faca de cebola”. Comecei a listar as coisas que ultimamente muito emocionaram esta banana que vos fala. Acontece que a lista ficou meio compriiiiiida, e achei melhor me ater a falar só de 05 chororôs. Deixo os demais anotados no caderninho mesmo.  

Dureza. No filme "Como esquecer?", a personagem Julia (Ana Paula Arósio) pede ao amigo que a amarre numa cadeira. E passa o dia inteiro ali. Amarrada. Sozinha. Em silêncio. Não consigo falar muito sobre a cena. Imagino que ela cause as mais diversas impressões. Eu vi ali tanta coisa. Uma dureza enorme consigo mesma. Uma covardia corajosa (ou uma coragem covarde?) para lidar com a dor da perda. E, por outro viés, uma lealdade e confiança tão bonita de ver entre amigos. Dessas que torna possível entregar na mão do outro e sem questionamentos o seu próprio absurdo e, tudo bem. Eu chorei pelos dois. Por quem é duro consigo mesmo e por quem está ao seu lado e não pode fazer outra coisa a não ser estar ao lado.



Ternura. Exposição "Mínimo, Múltiplo e Incomum", da Keyla Sobral. Já faz meses que vi, mas basta apertar o botão da lembrança e tudo me vem. Não consegui chegar ao final da primeira parede de desenhos sem chorar. Cada um tocava num pedaço de memória e explodia um mundo feito campo minado. Mas em silêncio. Tudo é afeto. Tanta ternura. Daquelas que conversa com o pequenino dentro da gente, sabe. Dava até vergonha de estar assim tão tocada no meio das outras gentes. Mas estou certa que levantasse a vista, constataria que  as gentes todas  estariam tocadas também. Não olhei. Não quis mesmo importunar o  diálogo silencioso que podia estar se travando com o terno de cada um.

Inocência. A Culpa é do Fidel. Aluguei o filme pela capa e pelo título. Acertei. Bom de ver. Fotografia bonita, drama e humor sutis. Aí tem essa garotinha que se chama Anna e fica muito confusa com a mudança repentina dos seus abastados pais que se transformam em "barbudos, vermelhos, comunistas", tudo culpa do Fidel! Mesmo que o filme se passe na França e que o comunismo do pai da menina tenha origens chilenas. La faute à Fidel! E a menina é de uma rabugice encantadora. Tem uma cena na escola de Anna em que ela confunde ser solidária com seguir a maioria. E fica muito aborrecida porque seus pais ensinaram errado. Como saber quando é um e quando é outro? Eu chorei quando ela entendeu. E é muito bonito ver o caminho que Anna percorre até passar a pensar por ela mesma. Porque solidariedade não se aprende assim mesmo, se forma.

Sermão. Não sou dada a padres. Não é nada pessoal, mas não sou. Acontece que ouvi um sermão iluminado no casamento de uma amiga amada que, sério, chorei a celebração inteira. Falei pra ela. Aquele padre foi um divisor de águas. Sou uma antes e outra depois daquele sermão. Ele falava sobre o fato de todos nós sermos luz e sombra. E que quando a gente casa, casa com a luz e com a sombra do outro. Vai no pacote. Não leva um se o outro não for. E eu, maquiagem borrada, já incrementava em pensamento o sermão do padre. Claro que há dias em que acordamos sombra e o outro acorda luz. E o contrário também - como não havia de ser? E é claro que isso tudo deve ser mesmo muito difícil. Mas imagina quanta coisa boa a gente pode viver nessa penumbra!


Lariri. Chorei no primeiro "Lariri..." da música nova do Chico cantada pelo próprio e pela Thais Gulin. E não é porque é do Chico. Se bem que temos todos que convir o qüão difícil deve ser conseguir continuar sendo "o" Chico Buarque depois de ser "o" Chico Buarque há tanto tempo! Ele é incrível. O Chico Namorando Buarque. Acontece que ele letrou com maestria aquela nossa burrice/cegueira/autoenganação de quando estamos abestalhadamente apaixonados. "Ah se eu soubesse..."? Que nada! Ainda que soubéssemos faríamos tudo igualzinho! O Chico canta cinicamente a nossa mentirinha de amor. "Casava com outro se fosse capaz...". Mentira! "Ah, se eu pudesse não caía na tua conversa mole outra vez...". Mentira! "Fugia nos braços de um outro rapaz....". Mentira deslavada! "Mas acontece que eu sorri para ti...e aí...larari, larara, lariri, lariri..." E toda a verdade mora nesse lariri. O Chico Sabido Buarque.

terça-feira, 10 de maio de 2011

"Amor, sonhe com os anjos. Não se paga pra sonhar."

Tenho uma relação super estranha/especial com meus sonhos. Sonho pra caramba, lembro de tudo com detalhes - cheiro, gosto, diálogos - e isso seria ótimo e muito divertido se eu não confundisse tudo com a realidade. Misturo vida sonhada com vida vivida e até entender que alhos não são bugalhos faço a maior confusão!
Certa vez sonhei que terminava com um namorado. Não teve o que me fizesse atender os telefonemas dele durante um dia inteiro. Ora, o que ainda tínhamos pra falar? Acabou, tá acabado! Até que, já à noite, eu tentava me lembrar do porquê do fim do namoro e... Ih, era sonho.
Outra vez, sonhei que estava grávida. Acordei, mãos nas cadeiras, analisando minha barriga no espelho e me achando a pior mãe do mundo porque eu tinha bebido umas cervejinhas na noite anterior. "COMO é que eu pude ser tão irresponsável e estar com toda essa ressaca estando grávida?" Me penintenciava enquanto a ficha não caía.
Aí, num outro dia, sonhei que eu namorava dois amigos ao mesmo tempo. Mas não foi assim um sonhinhozinho qualquer. Sonhei a relação inteeeeeira - início, meio e fim! Meses e meses! E mor-ro-de-ver-go-nha até hoje quando encontro um deles, aquele que descobriu tudo (no sonho!). Qualquer dia desses acaba escapolindo um pedido de desculpas.
Teve outro sonho muito legal, eu estava indo de barco (ora era à remo, ora o barco tinha motor) pra África. Nesse dia dormi quase 12 horas seguidas - um recorde inacreditável pra uma pessoa que sofre de insônia - o que faz muito sentido já que a África é mesmo muito longe pra se chegar de barco e eu não podia acordar de jeito nenhum enquanto não lá chegasse. Acordei super cansada, até um pouco bronzeada, e sem entender patavinas o que eu fazia na minha cama, em Belém do Pará, no Brasil, depois de tanto mar.
E poderia seguir aqui com uma lista enorme dos queridos, reais e inusitados sonhos meus. Acho que dava um blog só pra eles. Sim, eu os anoto!
Mas agora vou dizer porque andei pensando nisso tudo, afinal. É que tenho escutado numa estranha frequência meus amigos me contarem que sonharam comigo. Só na última semana, invadi o sonho de uma amiga lá na Itália, dias depois lá estava eu a sassaricar num sonho de um amigo no Rio de Janeiro e, de ontem pra hoje, apareci sem nenhum convite num sonho de outro amigo que dormia muito-bem/muito-obrigado lá em Brasília. Achei, aliás, um roteiro muito racional esse, pois pra vir da Itália pra cá dei uma paradinha no Rio - ou então não seria eu - e nada mais lógico do que fazer uma conexão em Brasília antes de aportar por aqui, não é verdade?
Daí que eu fiz essa piadinha besta porque tomei minha pílula do Bozo diária, mas a verdade é que fiquei meio encafifada com esse sonharéu todo. Será que vai me acontecer alguma coisa muito ruim? Será que vai me acontecer uma coisa muito boa? Será? O que me fez entrar na cabeça dormente de toda essa gente? Onde é que eu estava nos meus sonhos enquanto estava também nos sonhos deles?
Crenças, metafísica e visões Junguianas à parte, acho isso tudo muito engraçado mas de uma forma perturbadora. Engraçado porque eu me divirto um tanto nos meus sonhos e vivo mesmo todos eles. A parte de mim que sonha vive tão intensamente quanto a parte de mim que vive. Engraçado também por conta da confusão que faço que, quando desfeita, me rende boas gargalhadas e histórias pra contar. E no fundo quero continuar assim, sem saber administrar isso direito. Mas é perturbador pelos exatos mesmos motivos que faz ser engraçado. Ainda mais agora que dei pra me divertir (é o que eu suponho, pois nem todos os amigos disseram o que eu fazia na cabeça deles) nos sonhos alheios, mundo à fora!
Como não tenho opinião formada em relação ao tal "fenômeno onírico" (o que não diminui nenhum pouco meu prazer de sonhar), construí uma explicação pragmática para a minha visita insistente às cabeças dos amigos. É que acordada, ando sossegada, gostando de ficar por aqui, meio com preguiça de planejar viagens, curtindo um cafuné nas raízes. Mas essa é a parte de mim acordada. Quem disse que a parte de mim que sonha sossega? Sossega nada! Não foi parar na Itália, essa danada?

A foto é de um tumblr que eu adoro e que
super se encaixa nesse contexto: http://portasonhos.tumblr.com/


sábado, 7 de maio de 2011

Das coisas que não cabem

Sobre ser mãe: Tem Maria, tem Maíra e tem Marina. O ano é 1985. E o amor não cabe. Sobra, sobra, sobra.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Dia da sogra

Procura-se uma sogra.
Que não tenha assim MUITOS dotes culinários. Ou, se tiver, que tenha assim MUITA paciência pra ensinar.
Que, além do filho que me caberá, tenha ela outros. Aliás, quanto mais melhor.
Que goste de jogar canastra, mau-mau, buraco. Dominó, não. Ou, ao menos, que jogue uma boa conversa fora.
Que ela tenha uma risada pra fora, sonora, não muito curta, pra acompanhar a minha. É, era bom que a sogra fosse dada ao riso.
Que goste de contar histórias. Pode contar a mesma várias vezes que eu ainda ajudo a incrementar. Sou craque!
Que ela tenha as mãos macias (e há mãos macias nas mais ásperas palmas de mão) para fins dos netos que ela terá. Mas também pra segurar na minha porque quero uma sogra que segure na minha mão.
Que, se tiver um sogro pra mim ao seu lado, eles sejam um casal muito fofo. E se não tiver, que ela tenha vivido uma boa história de amor. Sogra sem amor é complicado de administrar.
Não é uma exigência imprescindível, mas ia ser muito legal se o sobrenome que ela me emprestasse (eu sei que é o do sogro, mas enfim, estou com o foco na sogra) fosse no plural ou no diminutivo. Minha fixação por plural relaxou um pouco e tenho criado afeição pelos inhos (moutinho, coutinho, passarinho etc.).
E que ela ache muito legal essa minha ideia de fazer o caminho inverso, de procurar primeiro por ela, e se sentindo toda especial (sendo!) queira ser minha sogra. Porque sogra que não me queira como nora...essa não quero, não!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Continuar e começar

Não lembro bem quem foi que disse e nem em qual rede social eu li, mas era algo mais ou menos assim: "Hoje eu não quero nada que comece, quero alguma coisa que continue". Pode ter sido a Tati Bernardi que diz umas coisas dessas bem bacanas e que a gente tem a impressão de já ter pensado mas não conseguiu organizar em frase pronta pra ser verbalizada.
Continuar é bom, verdade. Continuar é manso e começar é meio revolto. E se for pra classificar assim num contexto revolucionário (salve as pequenas revoluções!), continuar seria a direita e começar seria a esquerda - isso se direita e esquerda ainda conseguissem significar aquelas coisas que costumaram significar um dia. Se bem que direita e esquerda talvez não sirvam pra classificar continuar e começar. Ou servem? O que sei é que tem a hora do continuar e tem a hora do começar. E é preciso olhar pra dentro e ao redor ao mesmo tempo para saber qual dos dois verbos empregar.
Há mais de um ano eu continuava. Era pra ser assim, me diziam o olhar pra dentro e o olhar ao redor. Acontece que a zona de conforto (porque continuar é confortável pra caramba) começava a apresentar um desconforto escondido lááá no canto, e de repente ficou tão desconfortável que eu me expulsei de dentro dela a chutes e ponta-pés. Me puxei mesmo pelos cabelos, porque se expulsar da zona de conforto não é coisa simples de fazer não.
E aí comecei. E que grata surpresa com o emprego acertado do verbo. E que boa primeira impressão desse começar!

terça-feira, 5 de abril de 2011

Levantou poeira

Não é que eu ande varrendo as coisas pra baixo do tapete. Ou é? Vai ver que até varro, mas como não sou dada às prendas domésticas, acabo deixando espalhadas pela casa aquelas poeirinhas que não consigo juntar num montinho suficiente volumoso para que pudessem ser alcançadas pelas cerdas da vassoura. A vassoura é das boas, não é essa a questão. O problema é ela ser manipulada por um ser humano desses com pouquíssima coordenação motora para as atividades do lar feito eu. E aí essas poeirinhas ficam por lá, vários motins de poeirinhas, à espera da destreza que não tenho. E acho justo que elas, as poerinhas, me olhem feio e fofoquem entre si num tom cheio de cobrança porque falta de destreza não é desculpa pra largá-las ali. Muito menos pra sufocá-las embaixo do tapete. Dizer que elas sequer se avistam é d´uma tremenda cara de pau. Basta passar o dedo no chão e atestar, ali elas permanecem empoeirando a casa toda. Ignorá-las, seja por preguiça, por cara de pau, ou por dor nas costas, carrega mesmo um quê de masoquismo porque é bem isso que vai acontecer: os motins de poeirinhas logo se chamarão ácaros, me entupirão as vias aéreas, me empolarão a pele e eu vou ter que pegar a vassoura - porque dar fim às próprias poeirinhas não é função delegável - e tossindo, espirrando e me coçando, varrerei tudo como se deve. Pra fora da casa.

terça-feira, 29 de março de 2011

Dia do sorriso bonito e do abraço apertado

Ano passado ficou definido, entre uns amados queridos, que hoje, dia 29 de março, seria o "DIA UNIVERSAL DO SORRISO BONITO E DO ABRAÇO APERTADO". Porque nesse dia nasceu uma moleca de sorriso largo, lindo e arrebatador, e de abraços daqueles que amassam a roupa, a cara, o cabelo... sabe, abraço de verdade? Pois é. E aí, hoje é dia de comemorar ter sido arrebatada por aquele sorriso e ter sido amassada naquele abraço. E de lembrar de sorrir e de abraçar sempre. E de agradecer por essa lição. Eu rio, eu abraço e eu agradeço.
Na verdade, na verdade, hoje é um dia de saudade.
Uma saudade que, se irremediável não fosse, melhor remédio não haveria: sorriso bonito e abraço apertado.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Recadinhos de concurso

Alô você que chega antes dos portões abrirem e fica sentado na rua com cara de coitado lendo apostilas do tamanho da Bíblia. Sério. Não dá mais tempo.

Gurias dos cabelos longos, por favor, etiqueta de concurso: coque ou rabo de cavalo. As cadeiras são super coladas umas nas costas das outras e já tenho muitas coisas com quê me preocupar. Não mereço o passeio do cabelo de vocês pelo meu caderno de prova enquanto me concentro na leitura das benditas questões.

Instituições, entendam. É fisicamente impossível caber a bolsa de uma mulher nos sacos plásticos fornecidos. Cabe celular, cabe chave de carro, cabe relógio digital. Ok. Mas a bolsa inteira não, né? E também não cabem, as bolsas, em baixo das carteiras, naquele parco diâmetro de espaço. Acompanhem a moda, as bolsas estão cada vez maiores. Gigantes. Arrumem aqueles sacos de lixo, sei lá. Ou proíbam que se levem bolsas. O que não dá é pra ficar discutindo com as Maricotas esse tipo de fricote enquanto estou com os nervos a flor da pele.

Fiscais, pasmem, nós sabemos ler. Ler as instruções da prova (que podíamos ler sozinhos e em silêncio) duas vezes em voz alta não faz nenhum sentido. É como se vocês fossem aeromoças fazendo aquelas coreografias de saída de emergência e "máscaras cairão sobre as suas cabeças". Nós não estamos prestando atenção e estamos muito mais interessados em decolar e chegar. E quem não ler ou passar batido alguma informação... problema. Não é uma questão do avião cair e o ser humano morrer. Vai ser só mais um concurso em que não passou e pronto. Próximo.

Quem acorda e sai de casa pra fazer uma prova e não tem UMA caneta esferográfica preta de "corpo" transparente não vai passar no concurso. Simples assim. Ninguém deveria nem se dar ao trabalho de emprestar.

Concorrentes, queridos, me expliquem, por favor porque eu não consigo entender de jeito nenhum. Como é que se faz pra responder 100 questões objetivas, escrever uma redação, ir no banheiro duas vezes e fazer piquenique, tudo isso em 4 horas? Eu mal consigo levantar o pescoço e o povo lá, entrando e saindo, comendo barrinha de cereal, chocolate, club social, tomando refrigerante, suco, água. Qualquer dia desses vão levar pipoca, pedir pizza. E eu lá, sem nem levantar o pescoço.

Por ora, é isso.

terça-feira, 22 de março de 2011

Passatempo (ou lição sobre primeiras impressões no Bukowski):

Faça a relação entre as colunas:

(1) Cara bonito que cantarola Chico Buarque
(2) Cara que pega a sua capa de chuva emprestada na fila da balada
(3) Cara que se finge de gringo num inglês xexelento para se aproximar
(4) Cara com 18 anos de idade em balada de adulto

(a) Papo super interessante
(b) Grande babaca
(c) O mais legal da festa inteira
(d) Ganhou atenção de todas as meninas

Gabarito: 1-b; 2-c; 3-d; 4-a.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Para não esquecer do Carnaval

Versinho da Ida

Fosse eu duas, pulava era os dois carnavais
Mas como umazinha que sou e na falta de muitos reai$
Recife e Olinda ficaram para a próxima
Me encontrem em Ipanema, na Vinícius de Moraes.

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Versinho de Circo

A razão para a existência da Orquestra Imperial
É mesmo o Circo Voador e o seu Baile de Carnaval.
Sem Amarante, Max Sette e Moreno Veloso
Tapavam buracos: marido de Regina Casé e um crooner misterioso.
Thalma, Jacobina, Domênico e Kassim são mais que suficientes.
Sinceramente, nem percebi que a Nina não estava presente.
Lembro que Fernanda Torres pulava freneticamente fantasiada de Vani
E por alguma razão queríamos porque queríamos que a Thalma cantasse Gaby.

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Rapidinhas:

Matemática: 02 garrafas de vodka divididas por 04 mocinhas é uma conta que não deve mais se repetir para a felicidade geral da nação das moças de boa família.

Ideia fixa de se fantasiar de noiva no Carnaval não costuma terminar bem e ainda é provável que camufle algum daqueles desejos contidos que usualmente levam as moças à terapia.

Aquela máxima de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço: arquibancada popular da Sapucaí está aí pra relativizar a Física.

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Novo dito popular:
"Faca de cozinha não serve nem para rasgar suspensório de palhaço"

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Palavra do Carnaval = Piúba

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Dança do Carnaval = Magaly

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Lugar do Carnaval = Praça São Salvador

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Cena do Carnaval = Volta da Sapucaí, pós desfile da Beija-Flor. Metrô lotado. Muito. Abarrotado. Gente cansada, fantasiada, bêbada, dormindo, de tudo um pouco. 8hs da manhã. Porrada entre duas mulheres. Puxão de cabelo. Arranhão. Uma carioca x Uma turista. E um ser humano vestido de KIKO (aquele, amigo do Chaves) tentando apartar.

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Diálogos:

No bar (todas de head-band):
- Moço cadê minha vodka? Eu já te entreguei o ticket.
- Não entregou, não. Quem entregou foi ela.
- Ela TAMBÉM. Mas eu já entreguei meu ticket e quero a minha vodka.
- Desculpa é que eu fico confuso com tanta menina com esse troço na testa.
- Ah, e por causa disso tu ficas goiaba?

No taxi:
- Ih, fiz uma corrida com esse taxista ontem, ele é um estúpido.
- Blá, blá, blá, blá, blá (gritinhos, risadas etc).
- Fica quieto que esse taxista é nazista.
- Quê? Passista?
- Fala baixo, pô. Na-zis-ta.
- Anh? Passiva?
- Ai meodeus, NAZISTA!

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Lista das coisas mais bacanas que aconteceram no "Me Beija Que Eu Sou Cineasta":

1º- Encontrar Marcelo Rubens Paiva bebum, descamisado e com uma cara muito sapeca no meio do bloquinho;
1º- Tomar banho de purpurina azul que na verdade era pó de pirilim-pim-pim pois me devolveu toda a energia para o Carnaval já perdida há dias;
1º- Dançar diminutivos muito queridos: Dominguinhos e Gonzaguinha;
1º- Ser mais uma vez personagem de uma sincronicidade absurda que ainda precisa de mais uns 10 Carnavais para ser compreendida;
1º- Chamarem Otto pra subir no Trio e ele nunca mais descer;
1º- Cantar "Ereção" para o Rubinho Jacobina;
(tem mais...)
E não consigo enumerar por ordem de preferência, então os acontecimentos ficam assim, todos em primeiro lugar.

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Versinho da Volta

E a viagem feita com o coração apertado,
O dinheiro contado e o humor alterado,
Acabou tendo seu fim por cinco dias adiado.
(tudo culpa do localizador - VGFJ6E - decorado)
E desse tempo esticado ficaram:
Um encontro marcado, um reencontro frustrado,
Um Jeneci(CD) autografado, um Cartola(LP) comprado,
Um banho de cachoeira tomado, um amigo consolidado,
Enfim, um Carnaval, modéstia à parte, muito bem aproveitado.
=)

sábado, 19 de março de 2011

O Dramin, o Rio e o Ondjaki

Talvez eu já tenha perdido o "timing" de contar do Carnaval. Mas é que rendeu assunto/risada/lição pra mais de dez feriados. Acho que vale a pena guardar na memória (aqui denominada blog) em forma das Tirinhas Carnavalescas, tal qual o ano passado (ê saudade do Récife!). Vou fazer. Num próximo post. Porque esse, de tirinha, nada tem.

É que tava aqui lembrando do quanto me faltava espírito carnavalesco enquanto rumava ao RJ. E aí tomei um dramin para apagar e acordar lá no Galeão pronta para ser contaminada pelos fanfarrões ao redor.
Acontece que no meio do caminho havia Fortaleza. Havia duas horas no aeroporto de Fortaleza no meio do caminho. Dopada, não conseguia manter a cabeça ereta. Muito menos os olhos abertos. E me apavorava com a ideia de perder o voo e passar o carnaval no Beach Park. Pensei em escrever num papel o numero do voo, horário e destino para que algum bom samaritano me acordasse para o embarque. Não tinha forças pra escrever. E decidi que era exagero. Não era: num acordar sobressaltado entrei na fila do embarque de um voo para Campinas. Fui barrada, ufa! Ainda preferiria o Beach Park.
Alcançado o destino correto, um pouco grogue mas já bem dona de mim, uma fatia de escola de samba me recebe no desembarque. Putz, não fui contaminada. Achei a mulata feia, as roupas de mau-gosto, a bateria descompassada. Problemão!
Mas o Rio, sábio, macaco-velho, cheio de manha, tascou na minha frente um dos meus escritores "nova-safra" favoritos: Ondjaki, fofo, angolano, por quem tenho enorme carinho e de quem levava um livro na bolsa que pretendia ler na viagem, pretensão frustrada pelo dramin. Sentei ao lado dele pra esperar o ônibus e enquanto ele fumava um cigarro que não me incomodou, eu ri de canto de boca já contaminada pela receptividade personalizada do Rio de Janeiro.
No ônibus, fui lendo Ondjaki atééééé Copacabana, e ele me disse assim ó:

"Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração, tud' uma batida só, sangue leve no peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem? Se é impossível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá... Desde candengue que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem as nuvens dele também? De onde eu venho é muito longe, por isso, juro mesmo, nasci de novo. Vou te confessar: espanto é só aquilo que ainda nunca tínhamos vivido com a nossa pele!
Avilo, desculpa tanta filosofia, o que tenho é sede mesmo.
Num tenho dinheiro, num vale a pena te baldar. Mas, epá, vamos só desequilibrar umas birras (cervejas); sentas aí, nas calmas, eu te pago em estória, isso mesmo, pura estória daquelas com peso de antigamente, nada de invencionices de baixa categoria, estorietas, coisas dos artistas: pura verdade, só acontecimentos factuais mesmo. A vida não é um carnaval? Vou te mostrar alguns dançarinos, damos e damas, diabo e Deus, a maka da existência."

Duas primeiras lições do Carnaval:
1 - Dramin, nunca mais;
2 - O Rio tem todas as manhas pra me conquistar, até quando eu ACHO que estou difícil!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Palavra de Rainha

A menina conseguiu o número do celular do Presidente do Clube. Ligava insistentemente e dizia que queria ser Rainha. O Presidente, não muito paciente, disse-lhe que ela devia ser indicada por uma agência, "não é assim, eu quero e pronto, minha filha", haveria uma pré-seleção no clube. Mas a menina não conhecia ninguém. Só tinha o telefone do Presidente. E seguiu ligando. "Seu Fulano, o senhor não tá entendendo. Eu vou ser a Rainha! Eu só preciso ser a escolhida do clube, porque se eu tiver clube, eu vou ser a Rainha das Rainhas".
O impaciente (e, a essa altura, já implicante) Presidente entrou em contato com uma agência e pediu que recebessem a menina, mas já guardou-lhe o nome na cabeça para um eventual boicote. Menina impertinente! Aliás, baixinha, não tãããão bonita assim, e impertinente!
No dia da pré-seleção, a pequena liga de novo. "É que eu quero o meu biquine com antecedência. Tem que ser o mais bonito e vou fazer a maquiagem conforme a cor dele, blábláblá". Venceu pelo cansaço. Escolheu o biquine. E o Presidente impaciente-implicante já sublinhava em vermelho o nome dela na sua lista negra mental.
Eram 11 meninas. Ela não era a mais bonita. Ou era? Talvez nem a segunda mais bonita. Ou não? Parece que não seria preciso intervir. Ou seria? Deixasse nas mãos dos jurados. Acontece que a menina, a baixinha impertinente, estava mesmo decidida a ser Rainha, e entrou Rainha, com a maquiagem composta com o biquine mais bonito, cheia de garbo, e apagou todas as outras. A decisão dos jurados foi unânime. Inquestionável. E a menina olhou pro Presidente com aquela cara de "Eu disse!". E o Presidente já olhou para a menina com outros olhos: "Será?".
Tá. Mas a parte mais bacana da história vem agora. Segue o diálogo da última ligação da menina impertinente ao, agora, empolgado Presidente:
"Seu Fulano, tem um problema que a gente tem que resolver. Eu não tenho vergonha de onde eu moro, muito pelo contrário, tenho orgulho da minha origem humilde. Mas é que minha casa é muito pequena, o lugar é meio perigoso, o acesso é difícil. Aí, eu tava aqui pensando em como é que os repórteres vem filmar meu café da manhã? Será que a gente pode fazer o café da manhã no clube? O senhor não acha melhor?"
[Explica-se: É que no dia seguinte ao concurso, uma equipe de TV vai à casa da VENCEDORA acompanhar o 1º dia da nova Rainha das Rainhas do Carnaval Paraense, faz entrevista durante o café da manhã e depois passa tudinho no Jornal local]
"Mas menina, como é que tu já estás pensando no café da manhã do dia seguinte ao concurso? Falta mais de um mês! Fantasia ainda nem tá pronta..."
"É que eu já disse pro senhor que eu vou ser a Rainha!"

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NOTAS:
1- Pra quem não sabe o que é o concurso "Rainha das Rainhas do Carnaval Paraense": http://pt.wikipedia.org/wiki/Rainha_das_Rainhas_do_Carnaval_de_Bel%C3%A9m
2- Faltam 20 dias pro concurso. No dia seguinte, independente do resultado, divulgo clube e candidata personagens do post. Se o Presidente permitir, é claro.
3- Juro que se essa menina ganhar vou lá apertar-lhe a mão e pegar um cadinho dessa auto-confiança. E, olha, se ela não ganhar, também!
4- Adoro o Rainha das Rainhas, me divirto, simples assim. Adoro os códigos próprios, adoro os sobrenomes da high-society disputando faixa com as meninas impertinentes, adoro as coreografias e a paixão dos coreógrafos, adoro as rivalidades entre os clubes como se fosse futebol, e adoro toda essa cafonice cultural que deve mesmo ser incompreensível pra quem é de fora.
5- Não torço pra ninguém cair! (Mas que elas caem, ah, isso, caem)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Enxergar é preciso

Minha irmã, há uns 7 anos, descobriu que era míope. Não uma miopia assim dessas que se descobre porque deu uma dorzinha de cabeça ou porque se teve que apertar os olhos por mais de hora para ler a legenda no cinema. Ela descobriu, aos 18 anos, que tinha 5 graus de miopia. 5 graus! Ou seja, não sabia que não enxergava porque lhe faltava o parâmetro, né? Até os 18 anos, enxergar era aquilo... meio embaçado, meio borrado, meio sem contornos. Lembro do oftalmologista, preocupado, perguntando se ela tinha namorado porque... né... depois dos óculos, tudo poderia mudar.
A ideia não é expor a miopia tardiamente diagnosticada da minha irmã, até porque ela nem curte que eu propague essa história por aí (mal sabe que já perdi a conta de quantas vezes contei...).
A ideia é explicar essa sensação de, de repente, pôr óculos e passar a ver nitidamente o que sempre esteve ali na tua frente, todos vendo, todos te descrevendo, mas por conta de uma miopia emocional momentânea, não se enxergava muito bem. Até que um dia, naturalmente, a vida lhe põe os óculos.
E aí a coisa vai desembaçando, vai ganhando contornos - num processo bem mais lento do que a correção da visão da minha irmã, é claro - mas uma hora vai deixar de ser borrão por completo e, como se fossem novos, os olhos tudo verão!
A minha miopia não é nada que me classifique como PNE, ainda que me cause alguns transtornoszinhos por não ter muita afinidade com lentes de contato. Mas o fato é que fui vítima daquela outra. Daquela miopia, daquele astigmatismo, daquela hipermetropia, e, porque não, daquela catarata emocional. É! Não via. Nem de longe, nem de perto. Nem de binóculos, nem de lupa.
Por sorte ou por mérito, não importa, meu diagnóstico deu-se a tempo. Pus os óculos! Já começo a enxergar melhor. Tô no processo. Aquele lento e coisa e tal. Mas tô!
E pra dar uma forcinha no sucesso da recuperação, quem sabe uma acelerada porque enxergar é preciso (!), comprei óculos novos bem grandes. Vai que...né?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Onze meses depois...

Dentre tantas coisas fantásticas e com sotaque que aconteceram no Carnaval do ano passado (Recife/Olinda-PE) teve uma que me deixou encafifada (desassossegada, em bom pernambuquês) esse tempo todo: Na porta de entrada da Festa "Sem Loção", um aviso em papel A4 feito às pressas (como se não houvesse muito tempo para impedir a tragédia) impresso em negrito, sublinhado e capslock com a frase "PROIBIDA A ENTRADA DE DEBORA SECCO".
Foram meses de elocubrações até aceitar que nem sempre saberemos os porquês das coisas - assim é a vida, meus senhores - e, enfim, me rendi ao riso pelo riso.
Por sorte e para a minha boa saúde, a curiosidade que há tanto vem matando o gato, nunca me matou. Ri. Na verdade, morri de rir. Fotografei. Espalhei a história. E deixei rolar...


[Corta a trilha sonora do frevo e do maracatu]
CENA: RIO DE JANEIRO. GERAIS. EXTERNAS. DIA/NOITE
Entra a trilha sonora do samba. Planos de paisagens do RJ. Anoitece na praia. O calçadão se ilumina. Corta para o Bairro de Botafogo. Bar lotado.
LEGENDA: Onze meses depois...
CENA: BOTECO SALVAÇÃO. INTERIOR. NOITE.
Mesa de bar. Noite festiva, animada. Maíra, Renata, Mari e Lelê comemoram o aniversário de Danielle. Todas bebem, felizes. (E o que mais a direção imaginar)

E aí que às vesperas do aniversário de 01 ano da visão daquele aviso encafifante, Lelê, pernambucana, comunica às demais personagens que terá no Rio de Janeiro uma festa muito boa de Recife chamada "Sem Loção". Dou um pulo na cadeira! (Insertar um mini-flashback). Digo que fui àquela festa. Lá mesmo, em Recife. Isso! No Carnaval do ano passado. Lelê ri cinicamente, aquele riso de quem sabe das coisas: "Então, você foi na festa da Debora Secco?"

E finalmente eu soube.

Debora Secco estava na cidade para gravar um comercial qualquer (ou algo do tipo, isso não é importante para a trama) e soube que aconteceria a festa. Hype, descolada e alternativa, teria anunciado que pretendia por lá aparecer - o que foi publicado em alguma coluna, ou revista, ou espalhou-se mesmo no boca-a-boca de sotaques de "tês" e "dês" tão queridamente pronunciados. Os organizadores da "Sem Loção", preocupadíssimos com a boa reputação da festa, teriam tratado de tomar a urgente providência. E foi assim que afixou-se na porta de entrada o fantásTico aviso: PROIBIDA A ENTRADA DE DEBORA SECCO.

Se ela foi? Jamais saberemos...
Se ela soube? Tomara. Porque a história é tão boa, tão boa, que merece ser levada na esportiva.
Eu, livre da ignorância, quase um ano depois, ri tudo de novo!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Na praia com Helena

Helena tentava ler o nome do ator de uma peça num cartaz que estava do outro lado da estação do metrô. Perguntou se eu tinha vista boa. Não tenho. E foi mesmo só a introdução da conversa porque foi a própria Helena quem conseguiu ler.
Bonita, longilínea, cabelos brancos cacheados (e cheios de viço!), sorriso largo, olhos de mar e sotaque paulista.
Quem levou Helena pro Rio foi seu 4º marido, e fez muito bem, pois a praia de Ipanema era a praia dela. Helena nadava "muito pra lá da arrebentação" quase todos os dias, e me mostrava o braço torneado para comprovar. Nem era preciso.
Aliás, ela estava morrendo de saudade de sua praia. É que há um ano, Helena teve um aneurisma cerebral, ficou 60 dias em coma - "Quase vou mesmo, coração parou e tudo!", ela me dizia - e agora teve que ir morar com o filho em Copacabana e nem pode fazer seus exercícios diários enquanto o fisioterapeuta não liberar. Ela já disse a ele, aos filhos, a todos, que está se sentindo ótima - o que de fato aparenta - mas prometeu não teimar.
O 1º marido de Helena era paraense. "É que vieram tantos depois desse" que ela não pôde identificar meu sotaque. Tão logo soube da minha procedência, quis pronunciar todas as palavras aprendidas: cupuaçu, jambu, Cairu... Foi quando Helena quis me acrescentar à família, me apresentaria o filho mais novo e quem sabe assim teria netinhas de olhos puxados indígenas e da cor dos dela. Encantador o humor de Helena.
E como Helena estava adiantada para a fisioterapia, achou por bem fazer uma horinha comigo na praia, a praia dela. Matou um pouco da saudade e eu não poderia ter melhor companhia. Em 30 ou 40 minutos batemos o maior papo do mundo inteiro, as boas histórias dos meus 28 anos em sotaque paraense e as boas histórias dos 70 dela em sotaque paulista, tudo ali, no sol, na areia e nas esfihas de espinafre do Mustafah em Ipanema.
Até que o relógio interveio na cena e Helena partiu à fisioterapia. Desejei ligeireza na recuperação e disse que fosse com cuidado. Ela me desejou um dia lindo e disse que eu era uma amiga adorável.

Algum tempo depois, um amigo pergunta se eu estive a manhã inteira sozinha na praia. Digo que não. Estive na praia com Helena. Acostumado aos meus gracejos, pergunta: "Sei... A Helena do Manoel Carlos, né? Na praia do Leblon?". Não, amigo, a minha Helena é de Ipanema e de Manoel Carlos não tem nada. Está muito mais pra Silvio de Abreu, Carlos Lombardi ou Gilberto Braga.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Pérolas de Reveillon

Porque eu sou uma mandingueira muito displicente...
Acabo de descobrir que, na noite do reveillon, deveria comer 12 uvas, fazer 12 pedidos e guardar os caroços na carteira. Acontece que comi só 7, morrendo de rir e desconcentrada, e não tinha caroço nenhum porque eram uvas Thompson.
Será que garanto ao menos o 1º semestre?
Por que se os deuses da mandinga aceitarem esse pequeno ajuste, é só esperar chegar agosto (aniversário também é ano novo, não é?) eu como as outras 5 e fica tudo certo!

Comidas as uvas e fingidos os caroços, fui à praia pular as 7 ondinhas. Dessa vez o número estava correto (né?).
Acontece que a praia era de rio e o vento não foi convidado pro reveillon. E aí que formava uma ondinha de nada em intervalos de tempo tão grandes que quase chega 2012 e eu lá, pulando as ondas, enquanto o mundo acaba.

Acho que nem é o caso de lembrar que o arroz de lentilha desandou e virou sopa. Também não vale a pena citar o otimismo de aceitar o que nos vêm e "tomar" a lentilha numa boa, como se sopa fosse. O que só não aconteceu porque na hora de esquentar o panelão fomos jogar video-game e a "sopa" queimou.

Mas ó, os banhos, tomei todos!
E não tem Uva Thompson, lentilha queimada ou praia de rio sem vento que me embargue!
Banho de descarrego, Quebra Feitiço, Vence Demanda, Chama Dinheiro, Chora aos Meus Pés, Comigo Ninguém Pode, Atrativo do Amor etc. Alguma coisa tem que funcionar, hein!

Destaque para os ingredientes do Atrativo do Amor: Agarradinho, Carrapatinho, Chega-te a Mim, Chora aos Meus Pés, Busca Longe, Corre Atrás, Vai e Volta, e Atrativo da Perseguida (Bôta).

Abraços.

E Feliz 2011. Porque ano ímpar é mais legal.

Certo.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Um e Outro

Não é conversar. É conviver.
Não há o que conversar porque não há o que resolver.
Se o que Um quer é ficar com o Outro e o que o Outro quer é correr do Um, nem a mais longa das conversas do mundo convergiria esses quereres.
A não ser que aquele Outro passasse a querer o Um... Coisa que nem Um nem Outro vislumbram no momento.
A não ser que aquele Um passasse a correr atrás do Outro... O que o Um não faria agora por ser uma grande d´uma deslealdade consigo.
É por isso que não é conversar. É conviver.
Conviver. Porque se chegar o dia em que o Outro pare de correr do Um...
Conviver. Porque se chegar o dia em que o Um possa se concentrar no Outro sem que a si se comprometa tanto...
Conviver. Porque se algum dia um desses dias chegar, e ainda houver toda essa benquerência que hoje há, que ambos ainda estejam ao alcance Um do Outro.

Conviver. Converter. Convergir. Esses verbos todos aí.
"Perderam-se" não é uma boa conjugação.
Para qualquer dos finais em que Um e Outro ainda sejam personagens da mesma história.